31 de julho de 2025
POLÍCIA

Grávida de cinco meses, empregada doméstica denuncia tortura por patroa e PM após acusação de furto no Maranhão

Jovem de 19 anos afirma ter sido espancada, ameaçada com arma e arrastada pelos cabelos; patroa e policial militar foram presos

Por Redação
Publicado em
‘Ficou aquele medo’: jovem torturada por patroa e policial militar diz que viveu momentos de terror - Foto: Reprodução/TV Globo

Uma empregada doméstica de 19 anos, grávida de cinco meses, denunciou ter sido vítima de tortura física e psicológica após ser acusada injustamente de furtar um anel da patroa em um condomínio de luxo no município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís, no Maranhão. O caso, revelado pelo programa Fantástico, da TV Globo, chocou pela violência dos relatos e pelos áudios em que a própria patroa descreve as agressões.

A vítima, identificada como Samara Regina Dutra, afirmou ter vivido momentos de terror dentro da residência onde trabalhava. Segundo o depoimento prestado à polícia, ela foi ameaçada com uma arma de fogo, obrigada a ajoelhar, agredida com socos, tapas e puxões de cabelo, além de sofrer ameaças de morte. O homem apontado como participante das agressões foi identificado como o policial militar Michael Bruno Lopes Santos.

De acordo com a investigação, a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, patroa de Samara, suspeitou que a funcionária tivesse furtado um anel desaparecido na casa. Um dia antes das agressões, Carolina teria comunicado o sumiço da joia e pedido que a jovem ajudasse a procurar o objeto. Samara relatou ter passado horas tentando encontrar o anel, sem sucesso.

No dia seguinte, Carolina decidiu chamar um amigo para pressionar a empregada. Em áudios divulgados pela investigação, a empresária relata que o homem — posteriormente identificado como o policial militar — chegou à residência pela manhã e passou a intimidar Samara.

Segundo o relato da vítima, o policial a ameaçou com uma arma de fogo e exigiu uma confissão. “Falava que, se o anel não aparecesse, eu ia levar um tiro”, contou Samara ao Fantástico. Em um dos áudios, Carolina descreve que o homem colocou a arma na boca da jovem e a obrigou a ficar de joelhos enquanto exigia que ela revelasse onde estaria o objeto.

A violência, segundo Samara, durou quase uma hora. Ela afirma ter sido arrastada pelos cabelos, derrubada no chão e agredida com socos no pescoço e nas costas. Grávida de cinco meses, disse que tentou proteger a barriga durante as agressões. “Eu abraçava minha barriga porque tinha medo deles inventarem de me chutar”, relatou. A jovem afirmou ainda que Carolina sabia da gravidez desde o início do vínculo empregatício.

O anel acabou sendo encontrado dentro de um cesto de roupas sujas. Mesmo após a joia aparecer, Samara afirma que continuou sendo espancada. Em áudios obtidos pela investigação, Carolina admite ter batido na empregada após encontrar o objeto e afirma que sua mão chegou a ficar inchada devido às agressões.

“Dei tanto nessa mulher. Minha mão ficou inchada”, diz a empresária em uma das gravações analisadas pela perícia, que confirmou ser dela a voz registrada nos aplicativos de mensagens.

Após o episódio, Samara foi expulsa da residência e procurou ajuda com uma amiga que mora no mesmo condomínio. Em estado de choque, chorando e com dificuldades para falar, a jovem conseguiu acionar a polícia.

Segundo a vítima, quatro policiais militares foram até a casa da empresária, mas ninguém foi conduzido à delegacia naquele momento. Imagens cedidas pela Secretaria de Segurança Pública do Maranhão mostram um dos agentes entrando no imóvel.

Em um dos áudios, Carolina afirma que um dos policiais a conhecia e teria minimizado o caso. “Se não fosse eu, tinha que te conduzir para a delegacia porque ela está cheia de hematoma”, teria dito o PM, segundo a empresária. Em seguida, Carolina relata ter respondido que a jovem “nem deveria ter saído viva”.

O exame de corpo de delito confirmou as agressões sofridas por Samara, apontando lesões provocadas por socos, tapas e instrumento contundente, além de hematomas no rosto, costas, braço esquerdo e diversas manchas pelo corpo.

Carolina Sthela Ferreira dos Anjos e o policial militar Michael Bruno Lopes Santos foram presos nesta semana. A empresária foi localizada no Piauí, onde, segundo a polícia, tentava fugir com o marido e o filho. A suspeita das autoridades é de que ela seguiria para o litoral piauiense e, posteriormente, tentaria deixar o país rumo ao Paraguai.

A defesa de Carolina reconhece o envio dos áudios, mas afirma que a empresária exagerou na forma como narrou os fatos e sustenta que as circunstâncias não aconteceram exatamente como descritas. A advogada Nathaly Moraes afirmou ainda que a palavra “agressão” poderia ser utilizada, mas negou participação da cliente no espancamento e disse que Carolina não teria visto se Michael estava armado.

Já o policial militar confirmou ter participado da busca pelo anel, mas negou qualquer agressão. Segundo ele, ao discordar da atitude da empresária, deixou o local. Para o delegado responsável pelo caso, no entanto, Michael pode responder criminalmente por omissão, já que teria presenciado os fatos sem impedir a violência.

A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informou que Michael estava afastado do porte de arma havia dois anos por problemas psicológicos e que, nesse período, ele não tinha autorização para portar armamento. Os quatro policiais que atenderam a ocorrência também foram identificados e afastados das funções enquanto são investigados por possível omissão.

Carolina e Michael são investigados por tentativa de homicídio triplamente qualificado, tortura, cárcere privado, injúria, calúnia e difamação.

O caso também trouxe à tona o histórico judicial da empresária. Carolina responde a processos por dívidas e já foi condenada por calúnia após acusar injustamente uma ex-babá de furtar uma pulseira de ouro. A própria empresária também possui condenação anterior por furto.

Ainda traumatizada, Samara diz esperar por justiça. “Veio tudo à tona, como um filme bem doloroso”, afirmou. Apesar do trauma, ela recebeu uma notícia positiva após realizar exames médicos: o bebê não sofreu complicações.

“Graças a Deus, estava tudo bem. Deu aquela sensação de que vai ficar tudo bem mesmo”, disse a jovem.