31 de julho de 2025
fim da escala 6x1

Redução da jornada de trabalho divide especialistas e projeta impactos distintos na economia

Enquanto setor empresarial prevê queda no PIB e alta da inflação, estudos acadêmicos apontam geração de empregos e efeitos limitados

Por Redação
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Setor de comércio calcula aumento dos custos com redução da jornada - Foto: Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil/Arquivo

As propostas de redução da jornada de trabalho no Brasil, em debate no Congresso Nacional, têm provocado divergências entre especialistas e entidades sobre os impactos econômicos da mudança — especialmente com o possível fim da escala 6x1.

De um lado, representantes do setor empresarial projetam efeitos negativos, como queda no Produto Interno Bruto (PIB), aumento de custos e pressão inflacionária. Do outro, estudos acadêmicos e de institutos públicos apontam impactos mais moderados, com potencial geração de empregos e até estímulo à economia.

Setor empresarial prevê perdas e inflação

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais poderia gerar uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro, equivalente a uma queda de 0,7%. No setor industrial, o impacto poderia chegar a 1,2%.

Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) calcula que a medida elevaria os custos com folha salarial em até 21%, com possibilidade de repasse ao consumidor, elevando os preços em até 13%.

Para representantes dessas entidades, a redução da jornada aumentaria o custo da mão de obra, exigindo novas contratações e pressionando a competitividade das empresas.

Estudos apontam impacto menor e geração de empregos

Por outro lado, análises da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que os efeitos podem ser mais limitados.

Segundo o Ipea, o aumento médio no custo do trabalho seria de cerca de 7,8%, podendo chegar a até 10% nos setores mais impactados. Quando considerado o custo total das empresas, o impacto varia entre 1% e 6,6%, dependendo do segmento.

Os estudos também apontam que a redução da jornada pode estimular a criação de empregos e aumentar o consumo, já que trabalhadores teriam mais tempo livre e renda circulando na economia.

Divergência vai além dos números

Para especialistas, as diferenças entre os estudos estão ligadas às premissas adotadas. Enquanto entidades empresariais partem da ideia de que menos horas trabalhadas reduzem a produção, pesquisadores consideram possíveis ajustes do mercado, como aumento da produtividade e novas contratações.

A economista Marilane Teixeira, da Unicamp, avalia que o debate envolve também questões políticas e distributivas, relacionadas à divisão de renda entre capital e trabalho.

Inflação é ponto central do debate

O possível aumento de preços é um dos principais pontos de divergência. Para o setor produtivo, os custos mais altos seriam repassados ao consumidor. Já o Ipea avalia que esse impacto tende a ser limitado, podendo ficar em torno de 1% nos preços finais.

Pesquisadores também destacam que empresas podem absorver parte dos custos por meio de redução de margens ou ganhos de eficiência.

Histórico e produtividade entram na discussão

O debate atual também resgata experiências anteriores. Em 1988, a Constituição reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas, sem impacto negativo significativo no emprego, segundo estudos posteriores.

Já representantes da indústria argumentam que o cenário atual é diferente, com maior competitividade global e desafios de produtividade.

Cenário segue em aberto

Sem consenso entre especialistas, o tema segue em discussão no Congresso e no meio econômico. O resultado dependerá não apenas da aprovação da proposta, mas também da forma como empresas, trabalhadores e o mercado irão se adaptar às mudanças.

O debate sobre a jornada de trabalho expõe diferentes visões sobre crescimento econômico, distribuição de renda e organização do mercado de trabalho no Brasil.