31 de julho de 2025
SAÚDE

Vacinas contra o câncer: pesquisas avançam e Brasil pode entrar em testes nos próximos anos

Cientistas da Universidade de Oxford estiveram no país para discutir parcerias. Imunizante contra vírus associado a 200 mil casos de câncer por ano já está pronto para testes em humanos

Por Redação
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Presidente do A.C. Camargo, Victor Piana, e os pesquisadores de Oxford Lennard Lee e Tim Elliott. - Foto: Divulgação

As pesquisas sobre vacinas contra o câncer avançaram ao ponto de já existirem candidatos prontos para testes em humanos – e o Brasil pode entrar nesse circuito nos próximos anos. A avaliação é de cientistas da Universidade de Oxford, que estiveram no país em março de 2026 para discutir parcerias com instituições brasileiras, como o A.C. Camargo Cancer Center, Fiocruz, Inca e hospitais de referência. O objetivo é estruturar colaborações em imunoterapia, inteligência artificial e ensaios clínicos.

Entre os projetos mais promissores está uma vacina contra tumores associados ao vírus Epstein-Barr (EBV) , presente em mais de 90% da população mundial e ligado a cerca de 200 mil casos de câncer por ano (como linfoma de Burkitt, comum na África e também observado no Norte do Brasil). Segundo a pesquisadora Carol Leung, de Oxford, o imunizante já concluiu a fase pré-clínica (testes em laboratório e em animais) e deve avançar para estudos em humanos.

Os pesquisadores destacam a velocidade do desenvolvimento. Projetos recentes em Oxford saíram do conceito inicial para a preparação de testes clínicos em cerca de três anos – um intervalo considerado curto para os padrões da oncologia. Esse avanço combina plataformas já consolidadas (como as usadas nas vacinas contra a Covid-19) com novas estratégias para estimular o sistema imunológico a reconhecer células tumorais.

Outros projetos em andamento:

  • - LungVax: vacina contra câncer de pulmão prestes a iniciar testes clínicos em humanos (já em abril/maio de 2026).
  • - Vacina para síndrome de Lynch: proposta preventiva para pessoas com alto risco genético de câncer.
  • - Vacinas para câncer de mama (incluindo casos ligados ao gene BRCA1), ovário, trato gastrointestinal e mieloma.

Vacinas terapêuticas e preventivas
As vacinas contra o câncer são desenvolvidas em duas frentes:

  1. Terapêuticas – usadas em pessoas que já têm câncer, para potencializar a resposta imune contra o tumor.
  2. Preventivas (ou de interceptação) – aplicadas em indivíduos de alto risco (ex.: ex‑tabagistas inveterados para câncer de pulmão), com o objetivo de impedir o desenvolvimento da doença.

Inteligência artificial acelera o desenho
Modelos computacionais treinados com dados de dezenas de tipos de tumor ajudam a prever quais alvos devem ser incluídos nas vacinas. Isso pode permitir vacinas mais precisas e, no futuro, até personalizadas para cada paciente.

Brasil no radar
Os pesquisadores destacam o papel estratégico do Brasil: uso de biobancos, realização de ensaios clínicos e desenvolvimento conjunto de tecnologias, com o objetivo de tornar essas terapias acessíveis em países de renda média e baixa. Um consórcio brasileiro está sendo formado para definir quais vacinas serão testadas por aqui.

Desafios
Apesar do entusiasmo, nem todos os pacientes respondem às vacinas em desenvolvimento – em alguns casos, menos da metade apresenta resposta imunológica adequada. A expectativa é que novas tecnologias aumentem essa taxa nos próximos anos.

O que são vacinas contra o câncer?
Diferentemente das vacinas tradicionais (que previnem infecções), as vacinas contra o câncer treinam o sistema imunológico para reconhecer células tumorais – que muitas vezes conseguem escapar das defesas do organismo. Elas apresentam fragmentos do tumor ao corpo, estimulando células de defesa (linfócitos T) a atacar essas células.

Possibilidade de substituir quimioterapia
O médico Victor Piana, CEO do A.C. Camargo Cancer Center, sugere: “Imagine uma mulher que retirou um câncer de mama. O cirurgião extirpa todo o tumor e a biópsia confirma que a paciente está livre. Mesmo assim, o oncologista prescreve quimioterapia por segurança. E se, em vez de várias sessões de químio, ela recebesse uma vacina logo depois de operada? Além de reduzir o custo, evitaríamos efeitos colaterais.” Essa é mais uma possibilidade para as vacinas que vêm por aí.