Anti-inflamatórios por conta própria: o hábito comum que pode destruir rins e coração silenciosamente
Nove em cada dez brasileiros se automedicam; especialistas alertam que combinação de AINEs com remédios para pressão, diabetes ou diuréticos forma 'tríade perigosa' e pode levar à insuficiência renal aguda
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Ao sentir dor nas costas, dor de cabeça ou muscular, a reação de muitos brasileiros é automática: tomar um remédio. Na maioria das vezes, o fármaco escolhido é um anti-inflamatório, que até alivia o incômodo rapidamente, mas não sem riscos. Esse hábito aparentemente banal pode ser profundamente prejudicial à saúde, especialmente para os rins e o coração. A automedicação é extremamente comum no país. Segundo pesquisa de 2024 do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), cerca de nove em cada dez brasileiros tomam medicamentos por conta própria, e uma fatia significativa desses remédios pertence ao grupo dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno.
O perigo pode ser ainda maior quando os anti-inflamatórios são usados em conjunto com certos medicamentos, situação frequente entre pacientes hipertensos ou cardíacos. A chamada “tríade perigosa” envolve AINEs, diuréticos e remédios para pressão, como os inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor de angiotensina. Cada um desses fármacos interfere em uma parte do sistema que regula a filtração do sangue pelos rins. Quando usados juntos, podem reduzir drasticamente a pressão necessária para que os órgãos funcionem, fazendo com que eles simplesmente parem de filtrar o sangue de forma adequada. Outras combinações também afetam os rins, como AINEs com inibidores de SGLT2 (dapagliflozina, empaglifozina, canaglifozina) – medicamentos para diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal crônica –, com lítio, usado no transtorno bipolar, e com ciclosporina, indicado para doenças autoimunes e inflamatórias graves. Além disso, a combinação pode diminuir o efeito dos anti-hipertensivos, prejudicando o tratamento de quem tem pressão alta, e potencializar anticoagulantes e antiagregantes plaquetários, elevando o risco de sangramentos e hemorragia.
Para entender o que acontece nos rins, é preciso saber que eles atuam como um sistema contínuo de filtração do sangue, funcionando 24 horas por dia. Para realizar esse trabalho, necessitam de uma pressão interna adequada. Os AINEs bloqueiam a produção de prostaglandinas, substâncias que funcionam como “mantenedoras da pressão” dentro dos rins, mantendo os vasos sanguíneos abertos e bem irrigados. “Quando essas prostaglandinas são bloqueadas, os vasos que levam sangue ao rim se contraem. O rim recebe menos sangue e filtra menos. Em pessoas saudáveis, isso geralmente é temporário e reversível, mas em quem já tem algum problema renal, pressão alta, diabetes ou idade avançada, essa redução pode ser suficiente para causar danos graves”, explica a nefrologista Patricia Taschner Goldenstein, do Hospital Israelita Albert Einstein. Um estudo transversal realizado no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) revelou que 14,8% dos pacientes com doença renal crônica utilizavam AINEs, muitos deles por automedicação, principalmente para dores reumáticas e musculoesqueléticas.
Nesses grupos de risco, os rins funcionam com “margem de segurança” reduzida. Em pessoas com hipertensão ou diabetes, por exemplo, os pequenos vasos renais frequentemente já apresentam lesões – um processo chamado microangiopatia. Os rins ainda funcionam, mas têm menos reserva para enfrentar situações de estresse. Já em idosos, há um declínio natural da função renal relacionado à idade. A partir dos 40 anos, estima-se uma perda de cerca de 10% da função renal por década. Assim, uma pessoa de 70 anos pode ter apenas 70% da função renal de um jovem, mesmo sendo aparentemente saudável. Nesses casos, até uma dose única de anti-inflamatório é capaz de desencadear insuficiência renal aguda, quando o órgão para de funcionar de forma repentina – quadro que ainda pode se reverter se o fármaco for suspenso rapidamente. No entanto, se o uso for prolongado, pode evoluir para nefropatia crônica, com fibrose e cicatrizes no tecido renal, levando à doença renal terminal, que exige diálise ou transplante. “O uso prolongado é perigoso até para rins saudáveis, com aumento do risco de desenvolver doença renal crônica, mesmo em pessoas sem fatores de risco prévios como diabetes, pressão alta, obesidade e idade avançada”, alerta Goldenstein.
Outro problema grave é que a doença renal crônica costuma evoluir em silêncio. “Estima-se que cerca de 90% das pessoas nos estágios iniciais não sabem que têm a doença”, relata a nefrologista. “Quando alguém com os rins já comprometidos toma anti-inflamatórios regularmente, está acelerando a perda de função renal sem perceber.” Quando os sintomas aparecem, podem incluir urina espumosa, redução do volume urinário, inchaço nas pernas ou ao redor dos olhos, náuseas, falta de apetite, cansaço inexplicado, sangue na urina e confusão mental. Em muitos casos, o primeiro alerta só surge quando a função renal já está severamente comprometida.
Os impactos no coração e em outros órgãos também são preocupantes. Do ponto de vista cardiovascular, os anti-inflamatórios estão longe de ser inofensivos. “O uso de anti-inflamatórios geralmente leva a uma retenção maior de sal e água, e isso pode levar a um aumento da pressão arterial”, observa o cardiologista Carlos Eduardo Montenegro, vice-presidente do departamento de Cardiologia Clínica da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). A própria piora da função renal também agrava esse efeito, impactando diretamente o coração. Em pessoas com doenças cardíacas, o risco é ainda mais sério. “É muito comum que o uso por um tempo um pouco maior do que alguns dias leve a descompensações de doença coronariana, como eventos de angina ou até infarto agudo do miocárdio”, relata Montenegro. A utilização prolongada de AINEs pode atingir ainda o estômago e o fígado, causando úlceras e hepatites, principalmente em idosos ou pessoas com complicações prévias.
Diante de tantos riscos, os especialistas orientam que o uso de AINEs deve ser feito com muita cautela, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível. Há alternativas mais seguras quando usadas corretamente, como paracetamol e relaxantes musculares. “A escolha do tratamento ideal depende do tipo de dor, das condições clínicas do paciente e de uma avaliação individualizada”, orienta Patricia Goldenstein. Mas o ponto principal, segundo ela, não é apenas trocar de remédio. “O mais importante é identificar a causa da dor. Tratar a origem do problema é sempre melhor do que apenas suprimir o sintoma com medicamentos indefinidamente.” A mensagem final dos especialistas é clara: antes de recorrer ao anti-inflamatório por conta própria, procure orientação médica. Seus rins e seu coração podem agradecer.