Caso Cláudia Pollyanne: MP denuncia donos de clínica e tia da vítima por homicídio, tortura e cárcere privado
Esteticista morreu após ser mantida contra a vontade em comunidade terapêutica em Marechal Deodoro; laudo apontou 10 tipos de fármacos no corpo e sinais de asfixia
Publicado em
O caso que estarreceu a sociedade alagoana ganhou novos contornos após o Ministério Público de Alagoas (MPAL) denunciar os proprietários da Comunidade Terapêutica Luz e Vida, localizada em Marechal Deodoro, e também a tia da vítima pela morte da esteticista Cláudia Pollyanne Farias de Santana. O que inicialmente foi tratado como uma morte natural passou a ser investigado como homicídio após a autópsia e os depoimentos de outros internos da clínica, que relataram uma rotina de violência e abusos. A denúncia foi apresentada pela 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Marechal Deodoro, com pedido de prisão preventiva para os acusados.
Os proprietários da clínica, um casal, foram denunciados pelos crimes de homicídio mediante tortura e cárcere privado. Segundo o promotor de Justiça Adriano Jorge, o proprietário confessou à autoridade policial que utilizava o golpe hadakajime, conhecido no Brasil como mata-leão, para conter os internos. A esposa também é apontada como cúmplice direta, participando de agressões e ameaças contra os pacientes. Além deles, uma nova personagem aparece na denúncia: a tia da vítima, que mora nos Estados Unidos. Embora não tenha participado diretamente das sessões de tortura, ela teria contribuído para que ocorressem ao manter Cláudia Pollyanne internada contra a sua vontade por mais sete meses após o término do contrato, em coluio com os donos da clínica.
De acordo com as investigações, Cláudia Pollyanne procurou a comunidade terapêutica para um tratamento de desintoxicação e chegou ao local acompanhada de uma prima. O contrato inicial era de oito meses, com mensalidades de R$ 2.700 pagas pela tia. Uma psicóloga da clínica relatou que, após alguns meses, a esteticista apresentou-se debilitada, andando trôpega e com a saúde mental abalada devido à quantidade excessiva de medicamentos que o proprietário a obrigava a ingerir. Nos momentos finais de sua angústia, a vítima, assim como os demais internos, era obrigada a ingerir diversos fármacos em doses cavalares contra a sua vontade. Para ministrar a medicação, o acusado fazia uso da força física, especialmente espancamentos públicos e o golpe mata-leão, que consiste em entrelaçar os braços no pescoço da vítima até que ela fique inconsciente pelo bloqueio da circulação sanguínea.
O laudo de necropsia do Instituto Médico Legal (IML) revelou a presença de dez tipos de drogas no corpo de Cláudia Pollyanne: aminoclonazepam, amitriptilina, carbamazepina, clorpromazina, diazepam, fluoxetina, haloperidol, nortriptilina, prometazina e quetiapina. Além disso, a causa da morte foi apontada como asfixia, com sinais de traumatismo cranioencefálico. O promotor Adriano Jorge destacou que os acusados chegaram a criar um roteiro para que a morte parecesse natural, o que, segundo ele, revela a frieza e a periculosidade dos envolvidos. Outros internos, após a prisão dos proprietários, encorajaram-se a relatar que também sofreram agressões com socos, chutes e o mata-leão, além de testemunharem contra a própria vontade a administração forçada de medicamentos.
Diante das provas, o Ministério Público requereu a expedição de mandados de busca e apreensão no local dos fatos para juntada de documentos que comprovem a administração dos medicamentos, além da quebra de sigilo de dados e telemáticos de dispositivos eletrônicos apreendidos, como computadores, celulares, receituários, laudos médicos, contratos de serviços e prontuários. O pedido de prisão preventiva dos proprietários foi fundamentado na necessidade de preservar a ordem pública, garantir a instrução criminal e evitar a intimidação de testemunhas. O promotor ressaltou que a vítima, ao sentir necessidade de tratamento, procurou um espaço terapêutico nas redes sociais e acreditou que encontraria acolhimento e profissionais capacitados, mas acabou sendo dopada, torturada e assassinada. O caso segue em segredo de Justiça, e novas diligências devem ser realizadas nos próximos dias.