Fantástico expõe delegado-geral de Alagoas como mentor de esquema de fraudes em concursos públicos
Gustavo Xavier do Nascimento é apontado por delator como líder de quadrilha que cobrava até R$ 500 mil para garantir aprovação; esposa e vereador de Arapiraca também são citados
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A reportagem do Fantástico exibida neste domingo (22) colocou o delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, como uma das peças centrais de um esquema criminoso que fraudava concursos públicos em todo o país. De acordo com a investigação da Polícia Federal, o chefe da polícia alagoana atuava como mentor e beneficiário direto da organização, utilizando sua influência para cooptar membros da quadrilha e garantir aprovações ilegais para si e para aliados.
A investigação avançou decisivamente após a delação premiada de Thyago José de Andrade, apontado como chefe da organização criminosa sediada em Patos (PB). Em seu depoimento, Thyago afirmou que foi obrigado a trabalhar para o delegado-geral Gustavo Xavier, fraudando concursos para pessoas indicadas por ele sob ameaça e pressão institucional.
“Um nacional conhecido por Delegado Xavier, através de preposto tal como Eudes, coagiu Thyago a passar a fraudar concurso público a seu mando”, diz trecho do resumo da colaboração premiada obtido pela PF.
O próprio juiz da 16ª Vara Federal da Paraíba, Manuel Maia de Vasconcelos Neto, destacou em sua decisão que o delegado-geral “passou a ter poder de comando na organização criminosa quando, mediante ameaça, fez com que Thyago Andrade cometesse fraude em benefícios de seus aliados”.
A investigação aponta que Gustavo Xavier utilizou o esquema para beneficiar diretamente sua própria família:
- Aially Soares, esposa do delegado, teria sido aprovada no Concurso Nacional Unificado (CNU) para auditora fiscal do trabalho com a ajuda do esquema. A PF aponta que ela tentou usar um ponto eletrônico em uma prova para delegado, mas o equipamento não funcionou.
- Mércio Xavier, irmão do delegado-geral, foi aprovado no concurso do Banco do Brasil em 2023 também por meio das fraudes.
Além dos familiares, a organização teria beneficiado Anacleide Ferreira Feitosa, esposa de Eudson Matos — apontado como “homem de confiança” de Gustavo Xavier — aprovada no concurso da Polícia Científica de Alagoas.
Na última terça-feira (17), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na residência de Gustavo Xavier e em outros endereços ligados ao esquema em Alagoas, Paraíba e Pernambuco. O delegado-geral foi alvo das diligências, mas não foi preso — o juiz entendeu que os indícios ainda não eram suficientes para a prisão preventiva, apenas para a busca e apreensão.
A PF também identificou a participação de Ramon Isidoro Alves, policial civil de Alagoas e vereador em Arapiraca, que teria atuado como intermediário no esquema. Contra ele, a Justiça determinou quebra de sigilo telemático, interceptação telefônica e mandado de busca e apreensão.
O esquema desmontado pela PF utilizava técnicas sofisticadas:
- suborno de vigilantes e desligamento de câmeras;
- ponto eletrônico para transmissão de respostas durante as provas;
- acesso antecipado a gabaritos por meio de funcionários cooptados;
- “bonecos” pagos para fazer as provas no lugar dos candidatos.
Os valores cobrados variavam conforme o cargo. Para funções mais altas, como auditor fiscal, o preço podia chegar a R$ 500 mil. Alguns beneficiados parcelavam os pagamentos ou entregavam bens como carros e viagens.
Waldir Luiz de Araújo Gomes, conhecido como “Mister M”, trabalhava na Cesgranrio (organizadora do CNU) e depois no Tribunal Regional da Paraíba. Segundo a PF, ele teve acesso antecipado às provas e ensinava como violar os envelopes sem deixar vestígios.
“O lacre é fácil demais, tanto romper e botar de novo”, diz um dos áudios vazados.
A partir da delação de Thyago, a PF conseguiu mapear a participação de Gustavo Xavier no comando da organização, consolidando o delegado-geral como um dos mentores do esquema que fraudou concursos em tribunais, universidades, bancos federais e no próprio Concurso Nacional Unificado.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) informou que só se pronunciará quando for formalmente notificada. O delegado-geral Gustavo Xavier e a Polícia Civil de Alagoas não responderam aos contatos da reportagem até a última atualização.
A defesa de Thyago José e Laís Giselly nega que eles façam parte de organização criminosa e afirma que são inocentes. Os demais investigados não se manifestaram.
Os envolvidos podem responder por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa e concussão.