31 de julho de 2025
ECONOMIA

Raízen perde 70% do valor em um ano e pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 65 bilhões em dívidas

Ações da empresa despencaram e são negociadas a R$ 0,50; plano de reestruturação já tem apoio de credores que representam 47% do total devido

Por Redação
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Raízen tem mais de 140 vagas para a região de Piracicaba - Foto: Divulgação/Raízen

A Raízen, uma das maiores empresas de energia do Brasil, vive um momento crítico. Controlada pela Cosan, a companhia protocolou nesta quarta-feira (11) um pedido de recuperação extrajudicial para tentar reorganizar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. A notícia fez com que as ações preferenciais da empresa (RAIZ4) despencassem mais uma vez: por volta das 10h25, os papéis caíam 3,85%, cotados a apenas R$ 0,50.

O tombo, no entanto, não é de hoje. Em 12 meses, as ações da Raízen acumulam uma desvalorização impressionante de 70,11%. Só em 2026, a queda já chega a 35,80%. Atualmente, o valor de mercado da empresa é de aproximadamente R$ 5,38 bilhões – um número muito distante do que já representou no passado recente.

O que é uma recuperação extrajudicial?

Diferente da recuperação judicial, que envolve a Justiça de forma mais ampla e costuma incluir todos os credores, a recuperação extrajudicial é um mecanismo em que a empresa negocia diretamente com parte de seus credores e leva o acordo para ser homologado pela Justiça. No caso da Raízen, o plano já conta com o apoio de credores que representam mais de 47% do valor total das dívidas incluídas na negociação – percentual suficiente para protocolar o pedido.

Agora, a empresa terá até 90 dias para obter o apoio mínimo necessário para que o plano seja homologado e passe a valer para todos os credores envolvidos. O objetivo é alongar prazos, melhorar condições de pagamento e, quem sabe, conseguir novos aportes dos acionistas ou converter parte das dívidas em ações .

A Raízen faz questão de reforçar que a medida é estritamente financeira e não afeta suas operações. Clientes, fornecedores, revendedores e parceiros de negócios continuarão sendo pagos normalmente, e os contratos seguem valendo.

Como a Raízen chegou a essa situação?

A trajetória da empresa nos últimos anos explica o aperto financeiro atual. A partir de 2016, a Raízen embarcou em um ambicioso plano de expansão, financiado principalmente por dívidas. O grande carro-chefe dessa estratégia foi o investimento pesado em etanol de segunda geração (E2G), tecnologia que produz biocombustível a partir de resíduos da cana, como bagaço e palha. A aposta era que a demanda por combustíveis limpos explodiria com a transição energética.

A empresa também diversificou suas operações, entrando em geração solar, biogás, distribuição de combustíveis, lojas de conveniência e até internacionalizou seus negócios, comprando ativos da Shell na Argentina e no Paraguai. Enquanto isso, a holding Cosan também fazia movimentos ousados, como um investimento bilionário em ações da Vale, que depois perderam valor com a oscilação do mercado de commodities.

O resultado: prejuízo bilionário e dívida nas alturas

No ano fiscal de 2021/2022, a Raízen ainda vivia uma realidade diferente. O lucro líquido foi de R$ 3 bilhões, e a dívida líquida, de R$ 13,8 bilhões, era considerada administrável. Nos anos seguintes, no entanto, o cenário mudou drasticamente.

Até o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026, a empresa acumulou um prejuízo de R$ 15,6 bilhões – parte disso influenciada por um ajuste contábil de R$ 11 bilhões. Ao mesmo tempo, a dívida líquida disparou para R$ 55,3 bilhões. O peso dessas dívidas em relação à capacidade da empresa de gerar caixa se tornou insustentável.

O que vem por aí

Em teleconferência recente, executivos da Raízen afirmaram que a estratégia agora é retomar o foco nas atividades consideradas centrais do negócio, como a produção de açúcar e etanol e a distribuição de combustíveis. A empresa já começou a vender alguns ativos e a sair de operações menos ligadas ao seu núcleo.

Mas as tentativas de reforçar o capital esbarraram em divergências entre os sócios. Com a pressão dos credores aumentando, a recuperação extrajudicial surgiu como o caminho possível para reorganizar a casa sem parar as operações.

O que diz a Raízen

Em nota oficial, a empresa afirmou que a renegociação envolve apenas parte das dívidas financeiras e não afeta as operações. "O escopo da recuperação extrajudicial é estritamente financeiro e não envolve dívidas ou obrigações operacionais. Dessa forma, permanecem integralmente preservadas as relações da Raízen com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros de negócios, que seguem regidas normalmente pelos respectivos contratos", diz o comunicado.

A empresa também reforçou que todas as operações continuam sendo conduzidas normalmente e que o plano apresentado prevê o prazo de até 90 dias para a obtenção das adesões necessárias à homologação.