31 de julho de 2025
pesquisa

Ozempic pode ajudar no combate ao vício em drogas e álcool, aponta estudo

Pesquisa com mais de 600 mil veteranos sugere que medicamentos para diabetes tipo 2 reduzem risco de dependência e previnem overdoses

Por Redação
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Imagem ilustrativa - Foto: Freepik

Os medicamentos que viraram febre no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade podem ter um benefício até então pouco explorado: ajudar no controle do vício em drogas e álcool. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores da Washington University School of Medicine, em St. Louis, nos Estados Unidos. A análise indica que fármacos da classe dos agonistas do GLP-1 — como a semaglutida (Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro) — podem reduzir tanto o risco de desenvolver dependência quanto a gravidade dos casos em pessoas que já convivem com transtornos por abuso de substâncias.

Os resultados foram publicados após a avaliação de registros de saúde de mais de 600 mil ex-militares norte-americanos atendidos pelo sistema público de saúde voltado a veteranos. Todos os participantes tinham diagnóstico de diabetes tipo 2 e foram acompanhados por três anos. Segundo os pesquisadores, quem utilizava medicamentos da classe GLP-1 apresentou menor probabilidade de desenvolver dependência química e também registrou menos desfechos graves, como overdose e morte.

Como o medicamento pode influenciar o vício?

Os cientistas acreditam que as chamadas "canetas para diabetes" atuam em uma região do cérebro que está diretamente ligada ao prazer e à motivação: o sistema de recompensa. Esse circuito é ativado naturalmente sempre que sentimos prazer em atividades cotidianas, como comer ou passar tempo com amigos. No entanto, no caso das substâncias químicas, as drogas estimulam essa área de forma tão intensa que o desejo de continuar consumindo é reforçado de maneira compulsiva.

Segundo os especialistas, os receptores do GLP-1 estão localizados justamente em áreas do cérebro que participam desse processo, incluindo a região responsável pela liberação de dopamina, um neurotransmissor associado à sensação de prazer. Ao agir nesse circuito, acredita-se que o medicamento possa reduzir o impulso de buscar a substância, ajudando a diminuir a compulsão típica da dependência. Os pesquisadores comparam esse efeito ao que já é observado em pacientes com obesidade que usam esses remédios e relatam uma redução significativa na vontade constante de comer.

Redução do risco de novos vícios

O estudo também avaliou pessoas que não tinham histórico prévio de dependência. Nesse grupo, o uso de medicamentos da classe GLP-1 esteve associado a um risco 14% menor de desenvolver transtornos por uso de substâncias. A proteção variou conforme o tipo de droga:

  • Opioides: redução de 25% no risco
  • Cocaína: redução de 20%
  • Nicotina: redução de 20%
  • Álcool: redução de 18%

Para os pesquisadores, um dos aspectos mais promissores da descoberta é o potencial de aplicação em dependências que ainda não contam com tratamento medicamentoso eficaz, como é o caso da metanfetamina.

Próximos passos

Apesar dos resultados animadores, os especialistas fazem um alerta: ainda é cedo para considerar as canetas para diabetes como um tratamento consolidado para dependência química. O estudo teve caráter observacional, ou seja, analisou dados já registrados em prontuários médicos, o que não permite estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

O próximo passo da comunidade científica é realizar ensaios clínicos específicos para testar os medicamentos no tratamento do vício, inclusive em pessoas que não têm diabetes ou obesidade. Até lá, os cientistas reforçam que as abordagens já consolidadas — como o uso de remédios específicos e o acompanhamento terapêutico — continuam sendo a principal estratégia para tratar transtornos por abuso de substâncias.