Estudo do FMI comprova: Bolsa Família não afasta mulheres do mercado de trabalho
Mais de 84% das famílias atendidas pelo programa em fevereiro são chefiadas por mulheres
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Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicado nesta quarta-feira (11) colocou em perspectiva o impacto do Bolsa Família na força de trabalho brasileira, especialmente no que se refere à participação feminina. A pesquisa do órgão internacional bateu novamente o martelo sobre uma questão recorrente nos debates públicos: o programa de transferência de renda não reduz sistematicamente a participação das mulheres na força de trabalho. Pelo contrário, os dados mostram que as mulheres são as principais beneficiárias e gestoras do programa, sendo responsáveis por mais de 84% das famílias atendidas.
O atendimento ao público feminino é prioridade no Governo do Brasil, sobretudo nas políticas coordenadas pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Os dados de fevereiro confirmam essa realidade: das 18,84 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família, mais de 15,9 milhões (o equivalente a 84,38%) são chefiadas por mulheres. São elas, portanto, as responsáveis pela gestão e aplicação dos recursos recebidos, o que reforça o papel do programa como instrumento de autonomia financeira e cidadania.
Para responder à pergunta sobre se a transferência de renda estaria desencorajando as mulheres a ingressarem no mercado de trabalho, o FMI utilizou dados coletados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A presença das mulheres na força de trabalho é decisiva para o desenvolvimento do país, e as estimativas publicadas pelo Fundo são reveladoras: uma possível redução pela metade na diferença das taxas de participação na força de trabalho de homens e mulheres — de 20 para 10 pontos percentuais até 2033 — poderia elevar o crescimento anual do Brasil em cerca de 0,5 ponto percentual durante esse período.
O estudo do FMI aponta ainda que a necessidade de cuidar da família e de desempenhar tarefas domésticas estão entre as principais razões que mantêm muitas mulheres fora da força de trabalho, e não o benefício financeiro do programa social. A avaliação dos especialistas é que a disparidade salarial — mulheres tendem a receber salários mensais 22% inferiores aos recebidos por homens, considerando escolaridade, idade, raça, setor e cargo — pode levar mulheres, beneficiárias do Bolsa Família ou não, a preferirem ficar em casa e cuidar dos filhos mais novos a ingressar no mercado de trabalho.
Outro estudo, intitulado "Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho", lançado em 2025 em parceria entre o MDS e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), aprofunda essa análise ao traçar um panorama detalhado sobre os impactos das responsabilidades familiares na trajetória profissional. Segundo o levantamento, 50% das mulheres deixam o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho, enquanto os homens, em média, aumentam seus rendimentos nesse mesmo período. No Brasil, as mulheres dedicam em média 9,8 horas a mais por semana ao trabalho de cuidado não remunerado do que os homens, carga que é ainda maior entre mulheres negras, que chegam a dedicar 22,4 horas semanais.
A pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), intitulada "O efeito do aumento no valor das transferências de renda sobre a inserção dos beneficiários no mercado de trabalho", publicada em 2025, trabalhou sobre indicadores relativos ao aumento do valor mínimo do Bolsa Família, instituído desde 2023, e constatou que a mudança não gerou um incentivo para que os trabalhadores migrassem de empregos formais para informais. Conforme declarado por 34,4% do grupo participante, o principal fator para abandonar a força de trabalho foi a necessidade de cuidar dos afazeres domésticos, do filho ou de outro parente, reforçando a tese de que a falta de estrutura de apoio, e não o benefício em si, é o verdadeiro obstáculo.
O FMI também apontou caminhos para enfrentar essa realidade, sugerindo a ampliação do acesso a creches e serviços de assistência a idosos, ajustes na política de licença parental e a implementação eficaz da Lei da Igualdade Salarial como possíveis soluções para a disparidade de gênero no mercado de trabalho. Em conjunto, essas medidas poderiam promover um ambiente mais favorável para que as mulheres ingressem na força de trabalho e reforcem o potencial econômico do Brasil.
O Bolsa Família, criado para a redução da pobreza extrema, transfere mensalmente um complemento de renda para cada lar, considerando a composição das famílias. O programa repassa um valor adicional por criança na primeira infância (R$ 150), por gestante, nutriz e jovem de até 18 anos incompletos (R$ 50), garantindo que o cuidado com os filhos não seja um impeditivo para que as mulheres possam buscar oportunidades de trabalho e renda, mas sim um suporte para que possam fazê-lo com mais dignidade e segurança.