31 de julho de 2025
espetáculo

Bad Bunny transforma o show do intervalo do Super Bowl em manifesto cultural e político latino

Apresentação histórica no Super Bowl LX celebrou a identidade porto-riquenha com "La Casita", mensagens sobre imigração e independência, e gerou críticas do ex-presidente norte-americano

Por Redação
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Bad Bunny durante show no Super Bowl LX - Foto: Kevin Sabitus/Getty Images

Durante o show do intervalo do Super Bowl LX, realizado neste domingo (8), Bad Bunny protagonizou uma apresentação marcada por identidade cultural, memória coletiva e posicionamento político. O cantor porto-riquenho levou ao maior palco do entretenimento esportivo dos Estados Unidos uma celebração explícita da cultura latina, conectando espetáculo, história e pertencimento.

A performance teve início ao som de “Tití Me Preguntó”, quando o artista declarou “Qué rico es ser latino”, estabelecendo o tom do espetáculo. A partir desse momento, o público foi conduzido simbolicamente a Porto Rico. O palco ganhou palmeiras e vegetação tropical, criando uma ambientação que remetia às ruas, quintais e paisagens da ilha caribenha.

Bad Bunny surgiu vestindo branco e carregando uma bola de futebol americano, utilizando seu tradicional microfone de fone de ouvido — acessório reconhecido pelos fãs como uma homenagem ao cantor porto-riquenho Chayanne. A estética reforçou a fusão entre tradição, cultura pop e identidade latina.

Um dos principais elementos cenográficos foi a estreia de “La Casita” no Super Bowl. A estrutura, inspirada em uma casa tradicional porto-riquenha, apareceu como um espaço de acolhimento em contraste com a grandiosidade do estádio. Celebridades como Cardi B, Jessica Alba, Karol G, Young Miko e Pedro Pascal foram vistas no local, que também funcionou como palco secundário da apresentação.

Mais do que cenário, “La Casita” carrega forte significado simbólico na trajetória do artista. Presente em residências artísticas em Porto Rico e em turnês recentes, a casa representa os espaços onde o reggaeton nasceu, ligados às comunidades da classe trabalhadora. A mensagem é clara: o sucesso global não exige o apagamento das origens culturais.

A apresentação seguiu com “Yo Perreo Sola”, música lançada em 2020 que se tornou um hino contra o assédio e em defesa da autonomia feminina nas pistas de dança. A mensagem, transmitida em rede global, reforçou debates sobre gênero e liberdade, já explorados no clipe original, no qual Bad Bunny rompeu padrões tradicionais de masculinidade.

O repertório também incluiu posicionamentos políticos diretos. Em “NUEVAYoL”, o cantor manifestou apoio aos imigrantes e à diáspora porto-riquenha em Nova York. O título faz referência à pronúncia espanhola de “New York”, enquanto imagens no palco retomaram o discurso “ICE out”, apresentado anteriormente no Grammy, em crítica às políticas migratórias dos Estados Unidos.

Outro momento marcante foi a participação especial de Ricky Martin em “Lo Que Le Pasó a Hawaii”. A música aborda colonização e gentrificação, usando o Havaí como metáfora para alertar sobre os riscos enfrentados por Porto Rico diante do turismo predatório e da perda de identidade cultural.

Os símbolos visuais tiveram papel central ao longo do espetáculo. A bandeira de Porto Rico com o triângulo azul claro — associada ao movimento pela independência da ilha — foi exibida no palco. Em outro momento, Bad Bunny ampliou o significado da frase “Deus abençoe a América”, listando países de todo o continente, do Chile ao Canadá, enquanto surgia a mensagem: “Juntos somos a América”.

O Sapo Concho, espécie nativa de Porto Rico ameaçada de extinção, também apareceu como símbolo de resistência e preservação. Presente no álbum Debí Tirar Más Fotos, o animal representa tudo o que a ilha corre o risco de perder: território, tradições, ecossistemas e memória coletiva.

A apresentação, no entanto, gerou reações negativas no campo conservador. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou o show como “uma afronta” e afirmou que “ninguém entende uma palavra” do que o cantor dizia em espanhol. Em declarações públicas, Trump criticou o conteúdo, a dança e a escolha do artista para o evento, alegando que o espetáculo não representaria os “valores americanos”.

As críticas não foram surpresa. Trump já havia se posicionado contra Bad Bunny anteriormente, especialmente após o cantor se manifestar contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega). Paralelamente, o grupo conservador Turning Point USA promoveu um evento alternativo, o “The All-American Halftime Show”, com apresentações de artistas como Kid Rock e forte apelo à música country, guitarras e símbolos nacionalistas, liderado pelo fundador da organização, Charlie Kirk.