Por que a inteligência artificial consome tanta água e por que isso preocupa especialistas
Uso intenso de centros de dados, geração de energia e fabricação de equipamentos colocam a IA no centro do debate ambiental
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A inteligência artificial já faz parte da rotina das pessoas — do trabalho aos memes compartilhados nas redes sociais. No entanto, por trás das respostas rápidas e imagens geradas em segundos, existe um custo ambiental ainda pouco discutido: o alto consumo de água.
Especialistas apontam que a IA depende de grandes volumes do recurso natural para funcionar, principalmente por causa da infraestrutura necessária para manter os sistemas ativos. O uso da água ocorre, basicamente, em três frentes: na refrigeração dos centros de dados, na geração de energia elétrica que alimenta essas estruturas e na fabricação dos equipamentos, como servidores e componentes eletrônicos.
Atualmente, existem mais de 11 mil centros de dados em operação no mundo, segundo o Data Center Map. Os Estados Unidos concentram cerca de 4 mil dessas unidades, enquanto o Brasil possui aproximadamente 198. Para manter os servidores em funcionamento, a temperatura desses locais precisa variar entre 18°C e 27°C, o que exige sistemas de refrigeração intensivos — especialmente em países de clima quente.
Estudos indicam que um único centro de dados pode consumir cerca de 19 milhões de litros de água por dia apenas para resfriamento, volume equivalente ao consumo diário de uma cidade com até 50 mil habitantes. Além disso, essa água precisa ser doce, já que a água salgada acelera a corrosão de tubulações e equipamentos.
O impacto se agrava quando se considera que apenas 3% da água do planeta é doce, e menos de 0,5% está disponível e segura para consumo humano.
Outro ponto crítico é a pressão sobre as redes elétricas. Em 2023, os centros de dados foram responsáveis por cerca de 4% do consumo total de energia nos Estados Unidos, percentual que pode chegar a 12% até 2028. Diante desse cenário, empresas de tecnologia já avaliam gerar a própria energia, com usinas a gás natural ou painéis solares.
O consumo também aparece em escala individual. Pesquisadores da Universidade da Califórnia estimam que um prompt de IA com cerca de 100 palavras pode demandar o equivalente a uma garrafa de água (519 ml) quando se considera toda a cadeia de operação. Estudos mais amplos apontam que, em 2024, centros de dados consumiram cerca de 95 bilhões de litros de água, número que pode ultrapassar 1 trilhão de litros até 2028.
Com o avanço das mudanças climáticas, o problema se intensifica. Levantamentos mostram que mais da metade dos principais centros de dados do mundo já estão localizados em áreas com risco médio ou alto de estresse hídrico, como secas, enchentes ou degradação da qualidade da água.
O crescimento acelerado da inteligência artificial, portanto, levanta um alerta: sem planejamento ambiental e soluções sustentáveis, a tecnologia que promete revolucionar o futuro pode ampliar ainda mais a crise dos recursos naturais.