31 de julho de 2025
mundo

Acordo entre Argentina e EUA reposiciona minerais críticos e aumenta pressão competitiva sobre o Brasil

Terras raras, lítio e grafite entram no centro da segurança econômica global, e valor passa a depender de processamento

Por Redação
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China e Rússia exploram lítio na Bolívia, em regime de concessão - Foto: Gaston Brito Miserocchi/Getty Images

O acordo firmado em 4 de fevereiro entre Argentina e Estados Unidos para cooperação em minerais críticos vai além da diplomacia. O movimento sinaliza uma mudança estrutural no mercado global, no qual cadeias minerais passaram a ser tratadas por Washington como tema de segurança econômica e industrial.

Para o Brasil, o impacto é direto. Embora o país mantenha uma das maiores bases geológicas do mundo, o diferencial competitivo deixou de ser apenas a existência de reservas no subsolo. O mercado agora precifica a capacidade de estruturar projetos financiáveis, com previsibilidade regulatória, contratos de longo prazo e etapas locais de processamento.

No caso das terras raras, o Brasil detém cerca de 21 milhões de toneladas em reservas estimadas (em óxidos equivalentes), mas ainda carece de uma cadeia industrial completa de separação e manufatura — justamente o segmento em que a China consolidou sua vantagem histórica. A exceção é o projeto Serra Verde, que entrou recentemente em produção comercial e projeta entre 4,8 mil e 6,5 mil toneladas anuais até 2027, além de reduzir sua dependência de acordos com a China. O movimento começa a recolocar o país no radar de Estados Unidos, Europa e Japão.

No lítio, a posição brasileira é mais imediata. A exploração de espodumênio em Minas Gerais inseriu o país como fornecedor recorrente, com reservas estimadas em cerca de 590 mil toneladas de Li₂O contido e produção aproximada de 263 mil toneladas de concentrado em 2023. Ainda assim, com o acordo Argentina–EUA, exportar concentrado passa a ser insuficiente. O valor migra para refino, química avançada e estabilidade institucional.

O grafite desponta como um dos ativos mais subprecificados do portfólio mineral brasileiro. O país concentra aproximadamente 166,8 milhões de toneladas em reservas — cerca de 40% do total mundial, segundo ANM e USGS. O maior prêmio econômico, porém, está no grafite esférico purificado, usado em ânodos de baterias. Quem domina essa etapa torna-se fornecedor estratégico; quem não domina permanece exposto à compressão de margens.

No cobre, essencial para a transição energética, o Brasil combina produção relevante — cerca de 384 mil toneladas de cobre contido em 2024 — com forte desempenho exportador, somando US$ 5,05 bilhões em vendas externas e saldo positivo de US$ 1,924 bilhão. As reservas, estimadas em 11 milhões de toneladas, garantem fôlego de longo prazo, mas a captura de maior valor depende de investimentos em metalurgia e produtos de maior valor agregado.

O nióbio permanece como exemplo positivo. Com 14,2 milhões de toneladas de Nb₂O₅ em reservas e produção próxima de 196 mil toneladas em 2023, o Brasil demonstra que é possível capturar valor ao longo da cadeia quando há estratégia industrial de longo prazo — modelo que investidores esperam ver replicado em outros minerais críticos.

Já no cobalto, onde as reservas nacionais declaradas são inferiores a mil toneladas, o país não tem escala para competir globalmente. Nesse caso, a alternativa passa por nichos como refino, subprodutos e reciclagem.

Ao acelerar uma tendência já em curso, o acordo entre Argentina e Estados Unidos redefine a lógica do setor. Minerais críticos deixam de ser apenas commodities e passam a influenciar custo de capital, atração de investimentos e posicionamento geopolítico.

O Brasil tem escala geológica e diversidade mineral. O mercado, porém, passa a valorizar quem entrega processamento, contratos estáveis e previsibilidade regulatória — porque, na nova corrida global, a vantagem não está apenas no subsolo.