Presos usam Facebook para buscar relacionamentos e levantam alerta sobre golpes
Grupos com mais de 100 mil integrantes funcionam como aplicativos de namoro e expõem uso ilegal de celulares dentro de presídios
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Grupos no Facebook têm sido utilizados por pessoas privadas de liberdade para buscar relacionamentos amorosos, mesmo em regime fechado. As comunidades, que reúnem mais de 100 mil integrantes, funcionam como verdadeiros aplicativos de namoro e evidenciam o uso irregular de celulares dentro de unidades prisionais em diferentes estados do país.
Com nomes como “Preso também ama”, “Preso carente” e “Liberdade vai cantar”, os grupos reúnem detentos que se apresentam publicamente, compartilham imagens do cotidiano no cárcere e declaram interesse em relações afetivas, muitas vezes com a intenção de firmar relacionamentos estáveis fora da prisão.
A reportagem ouviu pessoas que cumprem pena em regimes fechado, semiaberto e aberto. A maioria relatou utilizar celulares dentro das unidades prisionais por meio de compartilhamento ou aluguel entre detentos, com valores que variam de R$ 10 por hora até cerca de R$ 3 mil pela posse do aparelho, a depender do presídio e do perfil do interno.
Os entrevistados afirmaram que o acesso aos aparelhos ocorre de forma clandestina e que o uso costuma ser restrito a determinados horários para evitar fiscalização. Em alguns casos, os celulares são compartilhados entre colegas de cela em sistema de rodízio.
Especialistas alertam que, embora parte dos detentos busque apoio emocional e novas conexões afetivas, há riscos associados a esse tipo de interação. O psicólogo criminal Christian Costa explica que a atração por criminosos, fenômeno conhecido como hibristofilia, pode levar algumas pessoas a ignorar sinais de alerta e assumir o papel de “salvadora” do parceiro.
Segundo Costa, também há registros de perfis falsos, criados por pessoas que não estão presas, mas simulam a condição de detento como forma de alimentar fetichização ou atrair possíveis vítimas. A análise de imagens divulgadas nos grupos aponta indícios de encenação, como o uso de acessórios proibidos dentro de penitenciárias.
Outro risco recorrente é o chamado “golpe do amor”. Relatos colhidos pela reportagem indicam pedidos frequentes de transferências via Pix, geralmente sob justificativa de compra de alimentos, cigarros ou pagamento por ligações feitas de dentro das unidades. Em alguns casos, as abordagens evoluem para tentativas de exploração financeira ou sexual.
Apesar dos alertas, há quem sustente relacionamentos duradouros iniciados nas redes sociais. Pessoas ouvidas relataram vínculos afetivos mantidos por mensagens e chamadas de vídeo, com expectativas de convivência após a saída do parceiro do sistema prisional.
Dados da Polícia Penal de São Paulo mostram que mais de 2 mil celulares foram apreendidos em presídios do estado no último ano. Já relatório do Tribunal de Contas do Estado aponta que mais de 68% das unidades prisionais paulistas ainda não possuem bloqueadores de sinal, o que dificulta o combate à comunicação ilegal dentro dos presídios.

