Aos 92 anos, Tiana Cardeal é reconhecida como a travesti mais velha do Brasil
Moradora de Minas Gerais, ela virou tema de documentário, recebeu homenagens de entidades nacionais e se tornou símbolo de resistência e memória da população trans no país
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Aos 92 anos, Tiana Cardeal foi reconhecida por entidades do movimento LGBTQIAPN+ como a travesti mais velha do Brasil. Moradora de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais, ela se tornou símbolo de resistência e memória da população trans após ter sua história retratada no documentário Meu Nome é Tiana, lançado em 2025.
O reconhecimento veio por meio de instituições como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a ABGLT e a Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans (RedLacTrans). Em novembro do ano passado, Tiana viajou de avião pela primeira vez para São Paulo, onde participou de eventos culturais e foi homenageada em espaços públicos, incluindo o Museu Afro Brasil.
Católica praticante, Tiana vive há mais de cinco décadas no mesmo bairro e mantém uma rotina ligada à igreja e à convivência com vizinhos e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+. Mulher trans, negra e aposentada, ela construiu a vida marcada por trabalho pesado, pobreza e episódios de violência desde a infância.
Ao longo dos anos, trabalhou em fazendas e em serviços domésticos, enfrentando jornadas exaustivas e condições precárias. “A minha vida foi uma vida muito sofrida”, resume. Apesar das dificuldades, Tiana atravessou décadas em um país que historicamente marginaliza pessoas trans e onde a expectativa de vida dessa população é muito inferior à média nacional.
A redescoberta de sua história começou em 2020, quando a produtora cultural Bianka Gomes passou a divulgar sua trajetória nas redes sociais. Após a morte de Bianka, o trabalho de registro foi continuado pela artista e cineasta Dafny Bastet, que dirigiu o documentário sobre Tiana.
Além do filme, ela também participou de eventos públicos e de um TEDx em Minas Gerais, onde falou sobre sua trajetória ao lado de jovens artistas e ativistas trans. Para lideranças do movimento, como Keila Simpson, da Antra, Tiana representa uma “ancestral viva” e um raro exemplo de longevidade trans no Brasil.
Especialistas e ativistas destacam que o caso de Tiana não é apenas uma história individual, mas revela a ausência de políticas públicas voltadas ao envelhecimento da população trans. “Envelhecer ainda é uma exceção, não um direito garantido”, afirma a presidenta da Antra, Bruna Benevides.
Hoje, mesmo com o reconhecimento simbólico, Tiana ainda enfrenta desafios comuns a pessoas trans idosas no país, como insegurança de direitos e falta de políticas específicas de cuidado. Ainda assim, sua trajetória passou a ser vista como um marco de resistência, memória e sobrevivência.
