31 de julho de 2025
ouro branco

Do Nordeste para o mundo: leite de jumenta é nova aposta para saúde e cosméticos

Pesquisadores de Pernambuco finalizam testes para uso seguro do alimento em recém-nascidos; produto raro e caro na Europa também ganha espaço em cosméticos

Por Redação
Publicado em
Leite de jumenta é considerado o mais parecido com o leite materno - Foto: Divulgação

Mais do que uma curiosidade histórica – como os famosos banhos de Cleópatra –, o leite de jumenta pode se tornar uma valiosa frente de desenvolvimento para o Nordeste e um aliado da saúde pública. Pesquisadores da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape), em Garanhuns, estão na fase final de testes para viabilizar o uso seguro do alimento em unidades de terapia intensiva neonatal, graças ao seu perfil nutricional único, que o torna a melhor alternativa ao leite materno.

O produto, conhecido como "ouro branco" e consumido desde a Grécia Antiga, é extremamente nutritivo. Possui baixo teor de gordura e da proteína caseína – principal causadora de alergias – e é rico em lactose e proteínas de fácil digestão (whey proteins). Estudos mostram que entre 82,6% e 98,5% das crianças alérgicas ao leite de vaca toleram bem o leite de jumenta.

Na Ufape, todo o processo segue rígido controle sanitário, desde a criação do rebanho vacinado até a pasteurização. A expectativa é que os testes finais em humanos sejam concluídos ainda neste primeiro semestre, permitindo seu uso pioneiro em UTIs pediátricas de Pernambuco.

O potencial vai além da nutrição infantil. O leite de jumenta, que pode custar até 50 euros (cerca de R$ 314) o litro na Europa, é um ingrediente valioso para a indústria de cosméticos, presente em cremes e sabonetes por suas propriedades hidratantes e de reparação cutânea. Esse novo ciclo econômico é a chave para a preservação da espécie, ameaçada de extinção no Nordeste devido ao abate para exportação de pele e ao desuso no campo. "Sem valor econômico e social, o animal doméstico tende ao abandono. Quando passa a ser valorizado, recebe cuidado e manejo adequado", explica o zootecnista Alex Bastos, da Nordeste Pecuária.

A cadeia produtiva em desenvolvimento, inspirada em modelos de sucesso como o italiano, promete transformar não só o leite, mas também criar derivados como queijos, alimentos funcionais e biofármacos. Isso gera renda para pequenos produtores e aproveita a rusticidade do jumento e as condições do semiárido. O Brasil pode, assim, transformar uma herança histórica em uma nova fronteira de inovação, saúde e sustentabilidade econômica para o Nordeste.