Livro revisita o Brasil holandês em Pernambuco e Alagoas e questiona mitos de Nassau e Calabar
"Pelo Lucro da Companhia" é resultado da tese de mestrado do historiador Rômulo Luiz Xavier do Nascimento
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Resultado de mais de duas décadas de pesquisa em documentação histórica pouco explorada, o livro “Pelo Lucro da Companhia – Uma breve história do Brasil holandês em três atos (1630–1640)”, do historiador Rômulo Luiz Xavier do Nascimento, propõe uma releitura crítica da presença holandesa no Nordeste brasileiro. A obra revisita especialmente Pernambuco e Alagoas e contesta a visão idealizada do período, em especial do governo de Maurício de Nassau.
Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutor pela Universidade Federal Fluminense, Rômulo explica que o livro nasceu a partir de sua dissertação de mestrado, defendida em 2004, mas foi revisado para dialogar com um público mais amplo. “Trata-se, em princípio, de um livro acadêmico, mas eu revi a escrita para que ela ficasse mais coloquial, mais palatável. Quem não é historiador pode ler e compreender”, afirma. Segundo o autor, “um aluno de segundo grau consegue acompanhar o texto”, que mantém o rigor da pesquisa, mas evita linguagem excessivamente técnica.
A relação entre a ocupação holandesa e o território que hoje corresponde a Alagoas ocupa lugar central na obra. O autor destaca que a presença neerlandesa teve impactos diretos na região, sobretudo no enfrentamento aos Palmares e na construção de mitos históricos que atravessaram séculos. “Já durante o Brasil holandês, a questão palmarina era um problema para a administração. Existia uma dupla guerra: a guerra de restauração e a guerra contra os Palmares, que ainda é muito subestimada”, explica.
Outro ponto abordado é a figura de Domingos Calabar, natural da região de Porto Calvo. Segundo Rômulo, a imagem de Calabar como traidor foi forjada por uma narrativa construída pelos vencedores da guerra. “A literatura luso-brasileira, sobretudo pernambucana, foi quem escreveu essa guerra e consolidou essa imagem. Até hoje isso é discutido, se Calabar foi ou não um traidor”, observa. O livro também menciona áreas como Barra Grande, no litoral sul alagoano, onde houve forte resistência luso-brasileira à ocupação holandesa, até a derrota final dessas forças e sua retirada em direção à Bahia, no fim da década de 1630.

A pesquisa que sustenta o livro teve início no começo dos anos 2000, a partir do contato direto com a Coleção José Higino, preservada no Instituto Histórico e Arqueológico Pernambucano. O acervo reúne cerca de 25 mil páginas de documentos copiados nos Países Baixos no século XIX. “São atas do governo holandês no Brasil, cartas administrativas, cartas gerais e documentos avulsos. Tem muita coisa ainda a ser vista ali”, afirma o historiador. Ele ressalta que parte desse material pode sequer existir mais na Holanda, devido a perdas causadas por guerras europeias.
Segundo o autor, um dos achados mais relevantes da pesquisa foi perceber que os holandeses, embora bem informados sobre o litoral e os grandes centros, desconheciam profundamente o interior nordestino. “Eles conheciam muito bem os aspectos geográficos e sociais de Pernambuco, mas não conheciam o interior. Isso só se aprende vivendo aqui, guerreando aqui, entrando na mata”, afirma. Esse processo, segundo ele, levou à produção de mapas mais detalhados e a um conhecimento que depois seria aplicado em outras colônias, como no Caribe.
O livro também questiona a ideia de que o Brasil holandês teria representado um período de prosperidade excepcional, a chamada "era de ouro". Para Rômulo, a lógica da Companhia das Índias Ocidentais era essencialmente econômica. “O lucro se sobrepôs a qualquer projeto de estabilidade”, afirma.
A concessão de empréstimos aos senhores de engenho para retomar a produção açucareira, seguida da cobrança rigorosa dessas dívidas, gerou conflitos e instabilidade social. “Isso foi um dos fatores que culminaram na guerra de restauração, em 1645”, explica. Um dado citado na obra é que João Fernandes Vieira, um dos líderes da insurreição, figurava entre os maiores devedores da Companhia.
A estrutura do livro também foge ao formato tradicional. Em vez de capítulos, o autor optou por “atos”, em referência ao teatro político da guerra e da administração colonial. O primeiro ato aborda a ascensão dos Países Baixos e a criação da Companhia das Índias Ocidentais durante a União Ibérica. O segundo trata dos anos anteriores ao governo Nassau, período frequentemente visto como desorganizado, mas que, segundo o autor, já apresentava formas de administração. O terceiro analisa o governo nassoviano, destacando conflitos cotidianos que desafiam a imagem de uma administração exemplar.
Ao falar sobre o chamado “período de ouro”, Rômulo é categórico. “Os holandeses não eliminaram duas práticas centrais que marcaram o Brasil por séculos: a monocultura e a escravidão”, afirma. Para ele, a valorização excessiva do elemento holandês, especialmente após a Independência, esteve ligada ao desejo de negar a herança portuguesa. “A figura de Nassau foi muito mitificada, sobretudo aqui em Pernambuco”, acrescenta.
"Pelo Lucro da Companhia" lançado pela editora Cancioneiro chega às ruas até o fim de dezembro. O livro físico poderá ser encontrado na livraria da Praça de Casa Forte, além das plataformas digitais da editora.
“É só questão de chegar o livro da gráfica, porque a gráfica é em São Paulo e a editora é do Piauí”, relatou. De acordo com o historiador, assim que os exemplares físicos chegarem, a Editora Cancioneiro fará a divulgação e comercialização nas plataformas digitais. “Quando chegar o livro físico, já bota na plataforma para anunciar e vender”. A obra estará disponível também em marketplaces como a Amazon.