31 de julho de 2025
Alimentação e saúde

Como identificar ultraprocessados e por que eles afetam corpo e cérebro

Especialistas explicam o que define esse tipo de produto, como reconhecê-lo no rótulo e os impactos que vão do intestino ao sistema nervoso

Por redação
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Alimentos ultraprocessados - Foto: Freepik

Os ultraprocessados ocupam cada vez mais espaço na rotina dos brasileiros, mesmo entre produtos vendidos como “fit”, “zero” ou “ricos em proteínas”. Segundo pesquisadores da USP, responsáveis pela classificação NOVA, esses alimentos fazem parte do grupo mais artificial da indústria, marcado por ingredientes que não existem na cozinha de casa e por forte presença de aditivos, aromas, espessantes e substâncias modificadas em laboratório.

A endocrinologista Jéssica Okubo explica que a fração de alimento “de verdade” costuma ser mínima nesses produtos. Entram na lista emulsificantes, amidos modificados, aromatizantes, corantes e óleos interesterificados.

Como reconhecer um ultraprocessado
A recomendação dos especialistas é simples: ignorar a frente da embalagem e olhar diretamente a lista de ingredientes. Para a nutricionista Mariana Ferrari, quanto mais longa e “estranha” for a lista, maior a chance de o produto ser ultraprocessado. Termos como xarope de glicose, gordura vegetal hidrogenada, estabilizantes e aromatizantes são sinais claros. A durabilidade excessiva e a textura padronizada também indicam alto grau de processamento.

O especialista em neurociência Gustavo Corrêa resume: produtos com mais de cinco ingredientes já merecem alerta — e, se muitos deles são impronunciáveis, é quase certo que são ultraprocessados.

Por que fazem tão mal ao organismo
Os danos vão além do excesso de açúcar, gordura e sal. Por serem macios, hiperpalatáveis e fáceis de consumir, esses alimentos reduzem a saciedade e favorecem o consumo exagerado, o que aumenta o risco de obesidade, diabetes e hipertensão.

A combinação industrial de aditivos, açúcar e gordura aumenta a liberação de dopamina, ativando intensamente o sistema de recompensa do cérebro. Isso reforça a vontade de comer, mesmo sem fome. Okubo destaca ainda que dietas ricas em ultraprocessados desequilibram hormônios da fome e da saciedade, elevando a grelina e reduzindo GLP-1 e PYY.

No intestino, emulsificantes e outros aditivos enfraquecem a camada de muco protetora, facilitando a passagem de substâncias inflamatórias para o sangue. Essa inflamação de baixo grau pode afetar o metabolismo, a sensibilidade à insulina e até o funcionamento do sistema nervoso central.

Há também a preocupação com compostos nocivos liberados durante o processamento industrial, como acrilamida e bisfenol — substâncias que podem interferir em hormônios e aumentar riscos carcinogênicos.

Impactos mais fortes em crianças e adolescentes
Organismos em formação são ainda mais vulneráveis. O cérebro e a microbiota intestinal estão em desenvolvimento, e a base da alimentação pode influenciar irritabilidade, foco, sono e risco de doenças metabólicas no futuro.

Os “inocentes” que também são ultraprocessados
Entre os produtos que passam despercebidos estão iogurtes “fit” com espessantes, barrinhas feitas com xaropes, pães integrais industriais, requeijões e queijos processados, leites vegetais estabilizados e snacks proteicos embalados. Ferrari alerta: apelo saudável não substitui leitura de rótulo.

Existe quantidade segura?
Não há limite considerado seguro por órgãos internacionais. O consenso é reduzir ao máximo — sem buscar perfeição — e manter a alimentação baseada majoritariamente em itens in natura ou minimamente processados.

Como diminuir o consumo na prática
Especialistas recomendam iniciar mudanças aos poucos:
• trocar o “pronto” pelo “quase pronto”, como frutas, castanhas e iogurte natural;
• preparar pequenas porções semanais de alimentos básicos;
• priorizar temperos frescos;
• manter opções rápidas e naturais acessíveis;
• criar o hábito de ler rótulos.

Para Corrêa, o planejamento é decisivo: quando a casa está organizada para escolhas melhores, a alimentação saudável deixa de ser esforço e vira consequência.