Maioria dos beneficiários deixa o Bolsa Família em uma década
Levantamento mostra que 60,7% saíram do programa entre 2014 e 2024; taxa é maior entre jovens que eram adolescentes no início da série.
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Dez anos após receberem o Bolsa Família, 60,7% dos beneficiários deixaram de depender da transferência de renda. Os dados integram o estudo Filhos do Bolsa Família, divulgado nesta sexta-feira (5) pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).
A maior taxa de saída foi registrada entre quem tinha entre 15 e 17 anos em 2014: 71,25% deixaram o programa no intervalo de dez anos. Na faixa de 11 a 14 anos, o índice chegou a 68,8%. Já entre as crianças com até 4 anos à época, 41,26% não estavam mais no programa em 2024.
O grupo analisado é considerado a “segunda geração” do programa criado em 2003.
O economista e autor do estudo, Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, destaca que o Bolsa Família funciona como mecanismo de alívio imediato e, ao mesmo tempo, de mobilidade social. Ele atribui parte dos resultados às condicionalidades de educação e saúde, como frequência escolar, vacinação e pré-natal.
Segundo o pesquisador, a saída gradual dos beneficiários é essencial para a sustentabilidade da política social. Entre os jovens de 15 a 17 anos que deixaram o programa, 28,4% estavam empregados formalmente dez anos depois, e mais da metade (52,67%) não constava mais no Cadastro Único.
As informações sobre ocupação foram cruzadas com dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho.
O estudo também aponta diferenças regionais e socioeconômicas. Entre jovens de 6 a 17 anos, moradores de áreas urbanas tiveram taxa de saída de 67%, ante 55% em zonas rurais.
Quando a pessoa de referência da família tinha emprego formal, a taxa de saída chegou a 79,4%, acima das registradas entre trabalhadores sem carteira (57,51%) e autônomos (65,54%). Famílias com responsável com ensino médio completo apresentaram maior mobilidade do que aquelas com escolaridade até o fundamental.
A pesquisa também avaliou o Novo Bolsa Família, retomado em 2023. Entre os beneficiários que estavam no cadastro no início daquele ano, 31,25% haviam deixado o programa até outubro de 2025. No grupo de 15 a 17 anos, o índice subiu para 42,59%.
No período, a entrada média mensal de famílias (359 mil) ficou abaixo da saída (447 mil). Para os pesquisadores, o movimento indica tendência de maior autonomia na próxima década.
Os dados foram divulgados na mesma semana em que o IBGE registrou que 8,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza em 2024, reduzindo a taxa para 23,1%, o menor índice da série iniciada em 2012.
O estudo destaca dois elementos da nova versão do programa: a “regra de proteção”, que permite a permanência temporária de quem consegue emprego, e o Programa Acredita, que oferece microcrédito para famílias de baixa renda.
A combinação, avalia Pinho Neto, busca tornar a transição para o mercado de trabalho mais gradual.
O Bolsa Família é destinado a famílias com renda mensal de até R$ 218 por pessoa. O benefício base é de R$ 600, podendo ser ampliado conforme a composição familiar. Em novembro, o programa registrou 18,65 milhões de famílias atendidas, a um custo de R$ 12,69 bilhões.