31 de julho de 2025
PARAÍBA

Conselheira tutelar revela história trágica de jovem morto por leoa em zoológico de João Pessoa

Gerson 'Vaqueirinho', 19 anos, era esquizofrênico, teve infância marcada por abandono e dizia só se sentir seguro "enjaulado"

Por Redação
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Verônica Oliveira conta que jovem Gerson tinha diagnóstico de esquizofrenia e sonhava em ser domador de leões na África - Foto: Reprodução/Correio Braziliense

A morte trágica de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, após invadir a jaula de uma leoa no Parque Arruda Câmara (Bica), em João Pessoa, revela uma história de abandono, vulnerabilidade extrema e falhas crônicas no sistema de proteção a crianças e adolescentes com transtornos mentais. Em entrevista ao Correio, a conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou Gerson desde os 10 anos, traçou um perfil comovente do jovem conhecido como “Vaqueirinho”.

Gerson era filho de uma mãe esquizofrênica, com avós também comprometidos mentalmente, e vivia em pobreza extrema. Ele e seus quatro irmãos foram destituídos da mãe e encaminhados para adoção. Todos foram adotados, exceto ele. "A justificativa da coordenadora da instituição foi de que ‘ninguém adotaria uma criança como ele’", relata Verônica.

Sem diagnóstico fechado por anos, Gerson acumulou passagens pela polícia por furtos. "Tinha 19 anos, mas quando conversava, sua capacidade cognitiva acredito que não passava de 5 anos", afirma a conselheira. Ele só se sentia seguro no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira e pedia para morar lá. "Ele teve 10 passagens na sócio-educação, e quando saía, fazia de tudo para voltar. Ele precisava se sentir seguro, e por algum motivo só se sentia seguro quando estava enjaulado".

Gerson sonhava em domar leões em um safari na África – chegou a entrar escondido no trem de pouso de um avião acreditando que seria levado para lá. Na manhã de domingo, esse sonho distorcido encontrou um fim fatal quando ele escalou a jaula da leoa Leona.

"Gerson é resultado de um sistema que o excluiu sempre, ele já estava enjaulado há anos. Hoje foi o desfecho de uma 'Crônica de uma Morte Anunciada'", desabafa Verônica. "Se tivesse tido um acompanhamento regular e sério, não estaríamos hoje vivendo isso".

O caso vai além da discussão sobre segurança do zoológico e lança uma luz urgente sobre a falta de políticas efetivas de saúde mental e acolhimento para jovens em situação de vulnerabilidade extrema na Paraíba. A conselheira finaliza com um lamento: "Meu sentimento é de total impotência, e esse sentimento causa uma dor enorme na alma".

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