Delegado revela que presidente da Câmara de Ipojuca direcionou R$ 12 mi para instituto da família
Flávio do Cartório (PSD) repassou R$ 12 milhões para instituto da família em três anos; esquema inclui "rachadinha" e assassinato de testemunha
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O presidente da Câmara Municipal de Ipojuca, Flávio do Cartório (PSD), repassou cerca de R$ 12 milhões em emendas parlamentares para uma associação controlada por ele e sua família em apenas três anos. As investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) revelam que o esquema de desvios no município pode atingir R$ 27 milhões. Na terça-feira (18), Flávio e o vice-presidente da Casa, Professor Eduardo (PSD), foram presos sob suspeita de lavagem de dinheiro, sendo o segundo liberado no dia seguinte.
Um dos principais alvos da Operação Alvitre, o Instituto Filhos de Ipojuca, recebeu inicialmente repasses de R$ 250 mil para projetos esportivos. No entanto, após alterar seu estatuto para incluir serviços de saúde, a entidade passou a receber valores milionários por meio de emendas impositivas — mecanismo que permite a vereadores direcionar verbas municipais para fins específicos. De acordo com o delegado Ney Luiz Rodrigues, as investigações comprovaram que a associação pertence a Flávio do Cartório, com contas de luz e documentos em seu nome ou de familiares.
Na segunda fase da operação, realizada nesta semana, além do presidente da Câmara, foram detidos o presidente do Instituto Filhos de Ipojuca e um empresário prestador de serviços ao município. A polícia cumpriu 19 mandados de busca e apreensão em Ipojuca, Recife e Bezerros. Durante a prisão de Flávio, foi encontrada uma pasta com anotações que sugerem um esquema de "rachadinha", relacionando nomes de servidores a repasses mensais que totalizariam R$ 345 mil.
O caso ganhou contornos dramáticos com o assassinato da professora universitária Simone Marques da Silva, de 46 anos, morta a tiros no quintal de casa horas após comparecer à delegacia para prestar depoimento sobre o esquema. Ela era ligada a uma das investigadas e teria remarcado sua oitiva para o dia seguinte, mas foi executada antes de testemunhar.
Além do Instituto Filhos de Ipojuca, outras entidades aparecem como beneficiárias do suposto desvio, como o Instituto de Gestão de Políticas Públicas do Nordeste (IGPN) — que recebeu R$ 6,3 milhões — e o Instituto Nacional de Ensino, Sociedade e Pesquisa (Inesp), vinculado à Faculdade Novo Horizonte. Dois diretores do IGPN estão foragidos, enquanto quatro pessoas ligadas à entidade já foram presas, incluindo as irmãs Eva Lúcia e Edjane Monteiro. O empresário Gilberto Claudino, gestor da Faculdade Novo Horizonte e apontado como coordenador dos desvios, foi capturado em novembro após um mês foragido.
As investigações seguem em andamento, com foco na atuação de associações de fachada sem estrutura para executar os projetos contratados e na manipulação de orçamentos públicos.