31 de julho de 2025
REALIDADE DAS PERIFERIAS

Estudo revela que mais da metade dos envolvidos com o tráfico deixa a escola antes do ensino médio

Pesquisa Data Favela ouviu quase 4 mil pessoas e aponta baixa escolaridade, arrependimento por não estudar e altos índices de problemas de saúde mental

Por Redação
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Estudo revela que mais da metade dos envolvidos com o tráfico deixa a escola antes do ensino médio - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um levantamento nacional do Instituto Data Favela escancara a relação entre abandono escolar e ingresso no tráfico de drogas: mais de 50% dos entrevistados afirmam ter deixado os estudos antes de concluir o ensino médio. O dado integra a pesquisa Raio-X da Vida Real, divulgada nesta segunda-feira (17), que ouviu 3.954 pessoas atuantes no crime em favelas de 23 estados.

O recorte de escolaridade mostra um cenário crítico. Apenas 22% dos entrevistados concluíram o ensino médio, enquanto 35% pararam no fundamental incompleto e 7% disseram não ter qualquer instrução formal. A falta de estudos aparece também como motivo de arrependimento: 41% afirmaram que teriam “estudado mais” se pudessem voltar no tempo.

Para o copresidente do Data Favela e presidente da Cufa Global, Marcus Vinícius Athaye, o dado revela consciência sobre o impacto da educação na trajetória pessoal. Ele destaca que oportunidades de trabalho e renda precisam caminhar junto com políticas educacionais, sobretudo para jovens já marcados pelo arrependimento de ter abandonado a escola.

Entre os cursos superiores mais desejados por quem vive essa realidade, Direito aparece em primeiro lugar, com 18% das citações. Depois vêm Administração (13%), Medicina e Enfermagem (11%), Engenharia e Arquitetura (11%) e Jornalismo e Publicidade (7%).

A pesquisa também relaciona baixa escolaridade, dificuldade de inserção no mercado e renda limitada: seis a sete em cada dez entrevistados ganham menos de dois salários mínimos. Fatores como alcoolismo, uso de drogas, violência doméstica e falta de oportunidades aparecem como portas de entrada no crime.

No campo familiar, o estudo mostra que 38% cresceram em lares monoparentais — 79% deles chefiados por mulheres — e reforça o papel central de mães, avós e tias na vida dos entrevistados. Para 43%, a mãe é a pessoa mais importante; 22% apontam os filhos.

O sonho da casa própria também se destaca: 28% querem ter um imóvel, e outros 25% desejam comprar uma casa para a família. Segundo a CEO do Data Favela, Cléo Santana, o desejo é semelhante ao da população brasileira em geral, que vê a casa como porto seguro.

Outro ponto sensível revelado pelo estudo é a saúde mental. Insônia (39%), ansiedade (33%) e depressão (19%) lideram a lista de problemas relatados. Entre os ansiosos, 70% recebem até um salário mínimo, e o índice sobe conforme aumenta o nível de escolaridade interrompida — 72% dos que iniciaram o ensino superior, mas não concluíram, sofrem do transtorno.

Para a coordenadora de pesquisas do Data Favela, Bruna Hasclepildes, a pesquisa reafirma que o avanço do crime está ligado à ausência histórica de políticas públicas nas favelas. Ela também destaca que 68% dos entrevistados não sentem orgulho do que fazem, desmontando o imaginário de glamourização do tráfico. “Eles não entram porque querem, mas por necessidade”, afirmou.

Ao apontarem os principais problemas do Brasil, os entrevistados colocaram pobreza e desigualdade no topo (42%), seguidas por corrupção (33%) e violência (11%). A falta de acesso à educação (7%) e à saúde (4%) também aparece entre as principais preocupações.

*Com informações da Agência Brasil