31 de julho de 2025
Racismo

Empresária acusada de racismo em AL é condenada e pagará indenização a jovem demitida por usar tranças

Para o advogado e representante do INEG Pedro Gomes, a sentença é considerada um marco no combate ao racismo e na defesa da estética negra no ambiente profissional

Por Ellen Gonzaga
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Gabriela Barros, 22 anos,foi demitida após comparecer ao trabalho com tranças - Foto: Cortesia a Francês News

A Justiça de Alagoas reconheceu como racismo a demissão da estudante de publicidade e propaganda Gabriela Barros, jovem de 22 anos, que foi demitida após comparecer ao trabalho com tranças nagô, um penteado tradicionalmente associado à cultura afro-brasileira. A empresa, localizada no Centro de Maceió, foi condenada ao pagamento de R$ 15 mil de indenização por danos morais.

O caso ocorreu em março deste ano, quando Gabriela trabalhava há alguns meses em uma empresa de consórcios. Ao chegar para trabalhar com o novo penteado, a gestora informou que aquele tipo de cabelo “não era aceito” no ambiente profissional. O relato de Gabriella nas redes sociais contando o motivo de sua demissão viralizou, após a jovem ter passado um mês de aviso prévio, após os casos de discriminação sofridos por ela. 

Inconformada com a situação, a jovem registrou um Boletim de Ocorrência e levou o caso à Justiça. A decisão entendeu a conduta da empresa como discriminatória e racista, configurando violação à dignidade e ao direito à identidade racial da trabalhadora.

Durante entrevista exclusiva a Francês News, Gabriela relatou o trauma deixado pelo episódio, mas também a esperança em seguir adiante.

“Hoje está mais tranquilo, pois já estou com um emprego e ocupando a mente, mas é um trauma total. Fico pensando em como agir em outro emprego, de sofrer racismo de novo. A gente já está ‘acostumado’ com olhares e atitudes disfarçadas, mas quando é direto assim, você fica sem saber o que fazer e como agir”, lamenta. 

Gabriela reforçou a importância de não se calar diante do racismo. "Não devemos nos calar, pois é isso que eles querem! Por mais que seja difícil e doloroso, racistas precisam pagar pelo que fazem. Infelizmente, dói na alma ter que passar por situações como essa, não só no dia a dia, mas também no nosso ganha-pão. Para eles, só vai doer no bolso. Espero muito que eles paguem um valor justo, não só por mim, mas também por todas as pessoas que passam por essa humilhação e que nunca dá em nada". 

O advogado Pedro Gomes, representante do Instituto do Negro de Alagoas (INEG/AL) que atuou na defesa de Gabriela, falou que a sentença tem caráter histórico, mas ainda cabe recurso, e que continuará o trabalho da defesa, mesmo após a saída da sentença. 

“Ainda não terminou oficialmente, estamos na fase de execução, então ainda há algum andamento pela frente", disse. 

Pedro destacou a importância do caso não apenas para a cliente, mas para toda a comunidade negra, reforçando a existência do racismo institucional.

“É uma mudança de paradigma muito grande, porque sabemos que casos assim não são incomuns, eles são corriqueiros. Infelizmente, quando chegavam à justiça, raramente recebiam a atenção que mereciam. Mas, nos últimos anos, esse panorama tem mudado, não só pelo trabalho que fazemos, mas também pelo Conselho Nacional de Jusitiça (CNJ) com políticas específicas sobre o tema". 

O advogado reforçou a necessidade de apoio para quem deseja denunciar casos de racismo no ambiente de trabalho, e a importância que possuem o poder judiciário, defensoria, Ministério Público (MP) e advogados negros que atuam em defesa de vítimas que sofrem algum tipo de discriminação.

“Algumas instituições estão abertas para receber essas denúncias, trabalhar com elas e impedir que fiquem esquecidas ou na impunidade. Entre elas, a Comissão de Igualdade Racial da OAB, o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Instituto do Negro de Alagoas (INEG) e a delegacia especializada. Todos estão muito bem preparados para isso", afirma.  

De acordo com o advogado, a sentença do caso Gabriela Barros é considerada um marco no combate ao racismo e na defesa da estética negra no ambiente profissional, reforçando a intolerância do Poder Judiciário diante de práticas discriminatórias.