31 de julho de 2025
Crime organizado

Facções expandem poder para cidades médias e pequenas no Brasil

Interiorização do crime aumenta disputas e violência, enquanto capitais registram queda nos homicídios

Por Redação
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Relatório alerta para uma nova dimensão do crime organizado: a infiltração em atividades econômicas legais e na gestão pública - Foto: Divulgação/Polícia Civil

O Atlas da Violência 2025 revela que a criminalidade no Brasil está se deslocando das grandes capitais para cidades médias e pequenas. Segundo o levantamento, a expansão territorial das facções criminosas como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) contribui para esse movimento, conhecido como “interiorização do crime”.

Entre 2013 e 2023, capitais como Fortaleza, São Luís, Goiânia, Cuiabá e o Distrito Federal registraram quedas superiores a 60% nas taxas de homicídios. Já municípios de porte médio passaram a vivenciar disputas antes restritas às periferias das metrópoles, intensificando conflitos e tornando algumas regiões mais mortais.

O estudo, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que todas as unidades da Federação têm presença de facções, embora com intensidade e dinâmica distintas. Na Bahia, por exemplo, CV e PCC disputam espaço com grupos locais, como Bonde do Maluco e Comando da Paz.

Para a ex-presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB-DF, Ana Izabel Alencar, a expansão do crime está ligada à organização interna das facções. “São grupos comandados por pessoas inteligentes que exploram o conhecimento local e se infiltram em regiões onde a polícia é menos preparada e a população mais vulnerável”, explica.

A professora Jacqueline Muniz, da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que essa movimentação não é um vácuo de poder, mas uma reconfiguração da governança criminosa. “As cidades do interior oferecem logística e política ideais para lavagem de dinheiro e controle eleitoral de baixo custo. É a economia ilegal organizada em novas escalas territoriais”, afirma.

Estados como Pernambuco enfrentam conflitos entre pelo menos 12 facções, enquanto Amazonas e Amapá registram confrontos entre CV, PCC e grupos regionais, como a Família Terror do Amapá e o Cartel do Norte. Em contrapartida, regiões como São Paulo mantêm relativa estabilidade, devido ao domínio de uma única facção — a chamada “pax monopolista”. Minas Gerais e Santa Catarina apresentam fragmentação menor e atuação pontual de grupos como o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).

O Atlas também destaca a crescente infiltração das facções em atividades econômicas legais e na administração pública, representando risco ao Estado Democrático de Direito. Apesar disso, políticas públicas de segurança, com ações preventivas, inteligência integrada e qualificação policial, têm contribuído para reduzir a letalidade em muitas regiões.