31 de julho de 2025
BRASIL

Violência urbana no Rio gera impactos duradouros na saúde mental da população, alertam especialistas

Cenas de guerra durante Operação Contenção evidenciam como exposição crônica ao estresse afeta desenvolvimento psicossocial, especialmente de crianças

Por Redação
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Desenvolvimento psicossocial acaba prejudicado, diz especialista - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

As cenas de guerra urbana registradas durante a Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, na última terça-feira (28), evidenciaram além da vulnerabilidade física da população, os profundos impactos psicológicos da violência armada. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil alertam que a exposição crônica a esses cenários transforma o medo em um estado de permanente alerta, prejudicando o desenvolvimento psicossocial, especialmente de crianças e adolescentes que convivem com tiroteios frequentes.

De acordo com a psicóloga Marilda Lipp, referência em estudos sobre estresse, a busca por segurança é uma das necessidades humanas mais básicas. "A exposição à violência urbana pode criar um nível de estresse altíssimo, afetando a saúde das pessoas", afirmou. A sensação de insegurança tende a provocar graves perturbações emocionais que podem ocasionar sintomas associados à ansiedade crônica ou depressão, incluindo taquicardia, hipertensão, problemas gastrointestinais e distúrbios do sono.

"O corpo não aguenta ficar em permanente alerta como acontece com pessoas recorrentemente expostas à violência", explicou Marilda. A resposta ao estresse é fisiológica: ao se sentirem ameaçadas, os cérebros liberam hormônios que preparam o corpo para fugir ou enfrentar o perigo. Mesmo vítimas secundárias - pessoas não diretamente expostas aos riscos - podem ser afetadas e se sentirem impotentes e desamparadas.

A psicóloga defende que o Poder Público deveria oferecer capacitação para a população lidar de forma mais saudável com o estresse, através de unidades de saúde do SUS e escolas. "É muito importante ensinarmos nossas crianças a lidar melhor com o estresse", concluiu.

O psiquiatra Octávio Domont de Serpa Júnior, professor da UFRJ, confirma que a procura por serviços de saúde sempre aumenta após fatos que geram comoção e ampliam a sensação de insegurança. "No Rio de Janeiro, verificamos que essas situações impactam a demanda na rede de atenção primária. Muitas pessoas expostas ao que aconteceu nos complexos do Alemão e da Penha acabarão procurando uma unidade de saúde nos próximos dias."

Domont destacou a dimensão coletiva do problema: "Há também o sofrimento coletivo. Esta é uma questão estrutural, política e social que não podemos ignorar. Sem uma resposta que faça jus a esta dimensão coletiva, esse problema seguirá impactando a todos". O psiquiatra alertou para a importância de os profissionais de saúde estarem aptos a acolher tanto vítimas diretas quanto testemunhas da violência, especialmente considerando a probabilidade de novas exposições a situações similares.