Roda de conversa no STJ chama a atenção para os desafios das mulheres em cargos de liderança e como tornar a sociedade mais justa e igualitária
Ministra alagoana Marluce Caldas abre o evento e destaca: “enquanto os homens avançam em linha reta e encontram portas abertas, as mulheres caminham por labirintos com tetos de vidro”
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Celebrar as conquistas das mulheres ao longo do tempo, debater os desafios atuais e o que vem pela frente. Assim foi a roda de conversa ‘Elas por Eles: Saúde, Cuidado e Presença do Feminino’, evento promovida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em parceria com o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), nesta quarta-feira, 15. No dispositivo principal, três mulheres com histórias inspiradoras: Marluce Caldas, ministra do STJ recém-empossada, Gilda Seixas, desembargadora federal e vice-presidente TRF1, e Rosimayre Gonçalves, desembargadora federal e presidente da Comissão TRF1 Mulheres. O convidado especial do evento foi o ator Edson Celulari.
A ministra Marluce Caldas fez o discurso de abertura. Ela enfatizou que o encontro é um ato de escuta e de construção coletiva, além de espaço de reconhecimento da força e delicadeza femininas que se manifestam em ambientes sociais, familiares e nas instituições da justiça. Em uma fala repleta de metáforas, a mensagem da alagoana destacava as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para chegar e se consolidar em cargos de liderança.
“Enfrentamos desafios invisíveis, nossa liderança e nossa qualificação são colocadas à prova, se agimos com empatia e doçura, nos rotulam como frágeis, se somos firmes, nos chamam de autoritárias. Enquanto os homens avançam em linha reta e encontram portas abertas, as mulheres caminham por labirintos com tetos de vidro. Que a nossa sociedade seja mais inclusiva, justa e humana”, declarou.
A desembargadora Gilda Seixas defendeu que já foi o tempo que o empoderamento feminino era reconhecido e gratificado somente com a entrega de flores e bombons. A desembargadora Rosimayre Gonçalves disse que é necessária a construção deu um projeto de protagonismo feminino, e que a cultura é um dos espaços onde deve haver maior promoção de parcerias para a participação e a inclusão femininas.
Quando teve a palavra, o ator Edson Celulari, que possui em seu perfil oficial no Instagram mais de 2 milhões de seguidores, destacou que as mulheres enfrentam lutas particulares que, quando compartilhadas, contribuem significativamente para tornar o Brasil mais justo e igualitário. O artista falou sobre datas marcantes para a história da mulher no país, entre elas, a conquista do direito de votar, em 24 de fevereiro de 1932.
Celulari fez citações de frases marcantes proferidas por mulheres, como “Ando de um lado para outro, dentro de mim (...) Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros”, de Clarice Lispector ucraniana naturalizada brasileira e dos maiores nomes da literatura do século 20. O ator ainda respondeu perguntas das mulheres na plateia sobre assédio moral e sexual, e ditadura da beleza e da juventude no setor artístico.
“Tivemos uma evolução acentuada na participação feminina, além da proteção dos direitos das mulheres nesse ramo, mas ainda há muito o que conquistar”, afirmou Edson Celulari.
No encerramento do evento, o ministro presidente do STJ, Herman Beijamin, anunciou que tomará medidas no âmbito da corte para estimular e aumentar o quadro de mulheres entre o corpo de ministros do tribunal, que tem 33 cadeiras sendo apenas 6 ocupadas por mulheres. Segundo ele, “o tribunal da cidadania não representa a cidadania na sua composição de juízes”.
“Sensibilidade é um dom pessoal, mas também conhecimento da relevância da temática para o processo civilizatório. Os homens precisam do conhecimento para vir o reconhecimento da problemática que estamos lidando. Os números no STJ são extremamente complicados, e isso cria uma desconexão entre nós e a sociedade. Por isso, estou propondo um diálogo com a Ordem dos Advogados do Brasil e o Ministério Público sobre o que pode mudar para assegurar que as mulheres tenham nas listas [tríplices] uma uma representação que seja paritária. Que tenhamos listas paritárias, por exemplo. Que uma lista seja comporta por dois nomes de mulheres e um homem, e na seguinte, dois homens e uma mulher”, anunciou Herman Beijamin, que concluiu:
“O importante é nós termos a noção objetiva do problema. Porque a noção valorativa da discrepância entre o sistema atual e o sistema de valores que a nossa Constituição tem, e o próprio processo civilizatório tem, isso está claro para todos”.