Exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha gera conflitos entre progresso e comunidades tradicionais
Enquanto Minas Gerais projeta polo industrial, moradores denunciam impactos ambientais e violação de direitos
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No coração do Vale do Jequitinhonha, a exploração de lítio por empresas multinacionais transforma a paisagem e a vida de comunidades tradicionais. Enquanto o governo de Minas Gerais celebra o programa "Vale do Lítio" – que atraiu R$ 6,3 bilhões em investimentos e gerou milhares de empregos –, moradores da região enfrentam poeira constante, assoreamento de rios e ruído ininterrupto de máquinas.
Ana Cláudia Gomes, pedagoga da comunidade rural Piauí Poço Dantas (Itinga), relata que os problemas se intensificaram a partir de 2023, com a chegada de novas mineradoras: "O córrego está assoreado, a poeira cobre tudo, e o barulho não para". Uakyrê Pankararu-Pataxó, da Terra Indígena Cinta Vermelha, complementa: "Há aumento de problemas respiratórios, assédio a mulheres e tentativas de invisibilizar nossa cultura".
A Sigma Lithium, empresa canadense que opera a mina Grota do Cirilo-Xuxa a céu aberto, não se manifestou sobre as denúncias, embora o MPF tenha recomendado a anulação de suas licenças em setembro, por falta de consulta prévia às comunidades, conforme determina a Convenção 169 da OIT.
Os números oficiais impressionam: a produção nacional de lítio saltou 83,6% em 2023, com a arrecadação de royalties (CFEM) chegando a R$ 55 milhões. Em Araçuaí e Itinga, a arrecadação cresceu 200%. No entanto, moradores questionam onde estão os benefícios concretos, já que serviços públicos como saúde seguem sobrecarregados.
O lítio, mineral crítico para baterias e energias renováveis, coloca o Brasil no centro de uma contradição global: países do Sul Global abrigam 70% das reservas, mas recebem apenas 8% dos investimentos em energia limpa, conforme estudo da Oxfam Brasil. Como alerta Viviana Santiago, diretora da organização, "financiar essa transição não é possível para muitos países, mesmo com riqueza mineral".
Enquanto isso, o Ministério de Minas e Energia tenta equilibrar a equação por meio do Conselho Nacional de Política Mineral, prometendo "uma mineração que seja vetor de inovação e inclusão". O desafio, agora, é garantir que o Vale do Lítio não repita os históricos de injustiça socioambiental que marcam a mineração no país.
Com informações da Agência Brasil.