31 de julho de 2025
ciência

Cientistas brasileiros criam biossensor portátil que detecta risco de depressão e outros transtornos pela saliva

Inovação pode revolucionar o diagnóstico precoce de transtornos psiquiátricos

Por Redação
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A tecnologia abre caminho para a detecção precoce de transtornos psiquiátricos como depressão, esquizofrenia e bipolaridade - Foto: Freepik

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Embrapa Instrumentação desenvolveram um biossensor portátil e de baixo custo capaz de identificar, por meio de uma amostra de saliva, alterações nos níveis de uma proteína crucial para a saúde mental. A tecnologia abre caminho para a detecção precoce de transtornos psiquiátricos como depressão, esquizofrenia e bipolaridade.

O dispositivo, uma tira flexível com eletrodos, se conecta a um analisador portátil e fornece o resultado em menos de três minutos. Seu alvo é a proteína BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro), essencial para o crescimento, sobrevivência e manutenção dos neurônios, e cujos níveis baixos estão fortemente associados a diversos distúrbios mentais.

Alta sensibilidade e baixo custo


A grande inovação do biossensor, detalhada em estudo recém-publicado na revista ACS Polymers Au, é sua sensibilidade. Ele foi capaz de detectar concentrações extremamente baixas da proteína BDNF, em uma faixa amplíssima, chegando a quantidades mínimas como 1,0 × 10⁻²⁰ gramas por mililitro.

Além da precisão, o dispositivo se destaca pelo custo acessível. Cada tira descartável tem um custo de produção estimado em US$ 2,19 (cerca de R$ 12,00). A tecnologia também possui capacidade de armazenamento de longo prazo e os resultados podem ser visualizados em tempo real em um smartphone via Bluetooth.

“Existem poucos sensores que fazem esse tipo de análise e o nosso foi o que apresentou melhor desempenho”, afirma Paulo Augusto Raymundo Pereira, pesquisador do IFSC-USP e autor correspondente do estudo.

Um alerta para a saúde mental


A detecção do BDNF funciona como um importante termômetro da saúde cerebral. Pessoas saudáveis geralmente apresentam níveis acima de 20 nanogramas por mililitro (ng/mL), enquanto em indivíduos com transtorno depressivo maior, essa concentração pode cair para menos de 10 ou 12 ng/mL.

“Quando o nível da proteína está muito baixo, pode servir de alerta para doenças e transtornos psiquiátricos. Por outro lado, ao ser capaz de sinalizar o aumento de BDNF, contribui como uma ferramenta para monitorar a evolução do paciente de acordo com o tratamento”, explica Pereira.

O desenvolvimento do biossensor é uma resposta a um cenário de crise global na saúde mental. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais. No Brasil, os afastamentos do trabalho por questões de saúde mental cresceram 134% entre 2022 e 2024.

“O aumento de casos de transtornos mentais e a consequente elevação do uso de medicamentos, especialmente após a pandemia de Covid-19, nos motivaram a trabalhar com o tema e buscar alternativas”, complementa o pesquisador.

Como funciona e próximos passos


O biossensor funciona por meio de uma reação imunológica. O eletrodo da tira é funcionalizado com um anticorpo específico que "captura" a proteína BDNF presente na saliva. Essa reação altera a resistência elétrica na superfície do sensor, mudança que é medida pela técnica de espectroscopia de impedância eletroquímica.

Atualmente, a análise do BDNF depende de métodos complexos, como o ensaio imunoenzimático, que demandam laboratórios especializados, grandes volumes de amostra e mais tempo.

A próxima etapa da pesquisa, segundo a equipe, é obter a patente da tecnologia, pavimentando o caminho para que, no futuro, o dispositivo esteja disponível no mercado e em consultórios médicos, personalizando e agilizando o diagnóstico e o acompanhamento de pacientes.