31 de julho de 2025
VIOLENCIA POLICIAL

Defesa do empresário agredido por policiais em Maceió apresenta representação criminal por abuso de autoridade

Boletim de Ocorrência diz que empresário praticava manobras perigosas em seu veículo; ele nega e questiona abordagem violenta

Por Vinícius Rocha
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Empresário foi abordado de forma hostil por membros da PM-AL - Foto: Reprodução

O advogado Ricarderson Araújo protocolou nesta terça-feira, 2, uma representação criminal contra policiais militares da ROTAM (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas), por suposto abuso de autoridade e violência durante abordagem ocorrida na madrugada do dia 30 de agosto, no bairro Antares, em Maceió. Ele conversou com exclusividade com a Francês News.

A ação foi ajuizada em nome do empresário Clévio, dono da Kekel Pizza, localizada no Barro Duro, que alega ter sido agredido, humilhado e preso de forma ilegal após ter sido parado pela guarnição quando trafegava nas imediações de condomínio monde mora, por volta da 1h30. De acordo com o relato da defesa, mesmo sem que houvesse flagrante ou justificativa legal, o empresário foi submetido a busca pessoal, seguida de revista no veículo. Ao solicitar acompanhar a fiscalização, Clévio teria sido impedido pelos policiais, que passaram a proferir insultos e ameaças, culminando em agressões físicas e na condução à Central de Flagrantes da Capital.

Segundo o advogado, durante a abordagem os militares se exaltaram verbalmente, xingando o empresário com termos como "vagabundo", "bandido" e "filho da puta", além de ameaçarem prendê-lo, apesar de não haver indício de crime. Clévio utilizava o Cordão Girassol, sinal que identifica pessoas com deficiências ocultas. A presença do cordão teria motivado novos questionamentos dos policiais, que, aos gritos, exigiam que o empresário revelasse qual seria sua condição.

Ainda de acordo com o documento, mesmo sem apresentar resistência, Clévio foi algemado. Durante o procedimento, um dos policiais teria torcido seu braço e aplicado força excessiva. Ao reclamar do tratamento e afirmar que apenas retornava para casa após o trabalho, levando o lanche da família, o empresário foi derrubado ao chão e imobilizado por quatro policiais, que teriam desferido socos e joelhadas. Um dos agentes chegou a se colocar em posição de combate, como se o desafiasse para uma luta.

A defesa também relata que um dos policiais, que terá o nome preservado, teria feito uma ameaça indireta, ao dizer "eu sei onde você mora", o que gerou temor quanto à segurança pessoal e familiar da vítima, especialmente porque o agente reside próximo ao condomínio do empresário. O episódio teria sido presenciado pelo pai de Clévio, que é policial militar da reserva e interveio no momento em que as agressões ocorriam.

Após o diálogo com o chefe da guarnição, os ânimos teriam sido contidos e os policiais autorizaram que o empresário se dirigisse à delegacia em seu próprio carro. No local, ele foi autuado por direção perigosa, mas a delegada de plantão afastou outras acusações feitas pela guarnição, fixando fiança para sua liberação.

"Os objetivos são punir os policiais pelo excesso de força e violência aplicada na abordagem" declarou Ricarderson Araújo. A defesa afirma ter recebido vídeos e relatos de testemunhas que registraram parte da ação e os anexará ao processo.

O QUE DIZ A PM?

a Polícia Militar de Alagoas informou que o motorista desobedeceu à ordem de parada e passou a ser acompanhado por cerca de um quilômetro e que seguiu todos os protocolos de segurança em abordagem a suspeitos.

A nota da PM diz ainda que o indivíduo passou a resistir ativamente, questionar a ação policial e afrontar comandos dos agentes públicos de segurança, chegando, inclusive, a proferir ameaças. Diante da resistência contínua e do comportamento agressivo, foi necessário o emprego de técnicas de imobilização para contê-lo e preservar a segurança da equipe.

Quanto a denúncia de violação de direitos das Pessoas com Deficiência, a PM-AL informou que o questionamento sobre a deficiência oculta se deu apenas para que fossem adotados, se necessário, procedimentos cabíveis às condições do suspeito. 

Veja a nota da PM na íntegra:

NOTA - POLÍCIA MILITAR DE ALAGOAS

A Polícia Militar de Alagoas (PM-AL), por meio do Batalhão de Rotam, presta informações sobre a ocorrência registrada na madrugada de sexta-feira (30), no bairro Antares, em Maceió.

Conforme boletim registrado, a equipe seguia em patrulhamento pelo bairro quando visualizou um automóvel executando manobras perigosas, chegando a atravessar cruzamentos em alta velocidade. A guarnição emitiu sinais sonoros e luminosos com a viatura, determinando que o condutor parasse.

O motorista, no entanto, desobedeceu à ordem de parada e passou a ser acompanhado por cerca de um quilômetro. Ao ser alcançado, os policiais solicitaram que ele descesse do veículo, seguindo os protocolos de segurança em abordagem a suspeitos. Neste momento, o indivíduo passou a resistir ativamente, questionar a ação policial e afrontar comandos dos agentes públicos de segurança, chegando, inclusive, a proferir ameaças.

Diante da resistência contínua e do comportamento agressivo, foi necessário o emprego de técnicas de imobilização para contê-lo e preservar a segurança da equipe. Conforme prevê a Súmula Vinculante nº 11 do Supremo Tribunal Federal (STF), o uso de algemas é excepcional, justificada quando há resistência à prisão, fundado receio de fuga ou risco à integridade física própria ou de terceiros. Diante da situação apresentada, foi necessário o emprego de algemas.

Somente após a chegada de seu pai, que se identificou como policial militar, o abordado cessou a resistência e as ameaças. O caso foi conduzido à Central de Flagrantes da Polícia Civil, onde o indivíduo foi autuado por resistência e direção perigosa de veículo em via pública.

A PM ressalta que, no momento da abordagem, a equipe observou o uso do colar de girassol, adotado para simbolizar condições relacionadas à saúde mental e deficiências não visíveis ou doenças raras. Ele foi questionado para que fossem adotados, se necessário, os procedimentos cabíveis à condição dele. Mesmo colocando as mãos para trás, ele permaneceu com provocações direcionadas à guarnição.

Quanto ao vídeo divulgado em redes sociais, vale esclarecer que a edição do conteúdo não retrata a totalidade dos fatos e sequer confirma a versão de que ele teria levado socos e tapas. Os militares que se feriram na tentativa de imobilização também foram submetidos ao exame de corpo de delito.

Por fim, a PM reitera que o Batalhão de Rotam é uma unidade especializada, com forte atuação no combate à criminalidade em todo o estado em ocorrências de grande vulto e situações de alta periculosidade.

O Comando Geral e o comando do batalhão defendem que a atuação policial deve seguir pautada pela legalidade no cumprimento do dever constitucional, porém, empregando a força proporcional quando se fizer necessário.