31 de julho de 2025
levantamento

Especialistas em reumatologia alertam para falta de centros de aplicação de remédios de alto custo no SUS

Falta de centros de infusão especializados e de protocolos para aplicação de medicamentos biológicos no SUS coloca em risco o tratamento de milhares de pacientes com doenças crônicas e raras

Por Redação
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Levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Reumatologia revelou que no Brasil existe apenas 61 centros de terapia assistida - Foto: [Tomaz Silva/Agência Brasil

Há mais de vinte anos, Fernando Henrique dos Santos, de 42 anos, convive com fortes dores, principalmente na coluna. Afastado do trabalho desde 2018 após ser diagnosticado com artrite reumatoide, ele teve seu diagnóstico alterado recentemente para espondilite anquilosante, uma forma de artrite que afeta gravemente a coluna vertebral. Seu tratamento depende do medicamento infliximabe, de alto custo, aplicado por infusão a cada oito semanas. Embora consiga o remédio gratuitamente, o grande obstáculo é encontrar um local para aplicá-lo com segurança pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Morador de Guarulhos, na Grande São Paulo, Santos já precisou se deslocar para Mogi das Cruzes e, atualmente, para uma clínica na zona leste da capital, usando seu convênio médico, pois o serviço não está disponível no SUS de sua região. Ele relata que, apesar do incômodo do deslocamento, a maior dificuldade é a falta de acesso ao tratamento integral pelo sistema público. “Pelo SUS eu não consigo fazer o tratamento”, disse.

O caso de Fernando ilustra um problema nacional destacado pela Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). De acordo com a entidade, a falta de centros de infusão especializados e de protocolos para aplicação de medicamentos biológicos no SUS coloca em risco o tratamento de milhares de pacientes com doenças crônicas e raras. O reumatologista Vander Fernandes, coordenador da Comissão de Centros de Terapia Assistida da SBR, explica que existe um “vazio” entre o paciente retirar o medicamento e encontrar um local adequado para sua aplicação segura.

Esses medicamentos, derivados de biotecnologia, exigem infraestrutura específica para manipulação, armazenamento em cadeia de frio e aplicação por equipe treinada, podendo levar horas para serem infundidos. “Há mais de 25 anos o SUS incorporou essa tecnologia, mas o erro foi tratá-la como um remédio comum. O paciente pega o remédio, mas não tem onde aplicar”, afirmou Fernandes durante o Congresso Brasileiro de Reumatologia, em Salvador. Sem as condições ideais, o fármaco pode perder eficácia e o paciente fica exposto a riscos de reações adversas.

Um levantamento da SBR revela a gravidade da situação: existem apenas 61 centros de terapia assistida no país, a maioria privada e concentrada no Sudeste. Apenas 11 têm contrato com o SUS. Estima-se que 20 mil pacientes dependam de medicamentos infusionais pelo sistema público. Uma pesquisa da Biored Brasil com 761 pacientes mostrou que 10% estavam sem acesso à aplicação e 46% não tinham um centro próximo. Mais da metade (55%) pagava entre R$ 150 e R$ 200 por aplicação, um impacto significativo no orçamento familiar.

Diante do cenário, a SBR pressiona o Ministério da Saúde pela regulamentação e financiamento de uma rede de centros de terapia assistida. Procurado, o Ministério informou que a criação desses pontos está em fase de estudos técnicos. Enquanto isso, pacientes como Fernando Henrique seguem dependendo de alternativas privadas ou suportando custos extras para não interromper tratamentos essenciais.