31 de julho de 2025
DIEESE

Relatório nacional revela avanços e desafios persistentes nas desigualdades no Brasil

Estudo do Dieese aponta progresso em 25 de 43 indicadores, mas desigualdades de raça, gênero e região persistem de forma estrutural; Alagoas, no Nordeste, sente impacto direto

Por Redação
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Brasil tem queda na desigualdade em educação, emprego e meio ambiente - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasi

Um novo retrato das disparidades brasileiras foi lançado nesta quinta-feira (28) em Brasília. O terceiro Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades, produzido pelo Dieese para o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, mostra que, dos 43 indicadores analisados, 25 registraram avanços. Os progressos mais significativos foram nas áreas de meio ambiente, trabalho, educação e saúde, um dado crucial para o debate nacional e para estados como Alagoas, que historicamente enfrentam brigas contra as desigualdades regionais.

Apesar do cenário majoritariamente positivo, com apenas três indicadores em retrocesso, o estudo adverte que as desigualdades estruturais de raça/cor, gênero e entre regiões persistem de forma dramática no país. Para o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, coordenador do relatório, o problema é “estrutural em várias dimensões” e os avanços, mesmo onde existem, ainda são excessivamente lentos. O deputado Pastor Henrique Vieira (PSol-RJ) ecoou a gravidade do tema, enfatizando que “isso não são números. São pessoas, histórias, memórias” que demandam um país mais justo.

Meio ambiente: luzes e sombras na véspera da COP30

Na área ambiental, o Brasil apresentou dados ambivalentes. Houve uma redução nas emissões de CO₂ per capita, caindo de 12,4 toneladas em 2022 para 10,8 toneladas em 2023. Paralelamente, o país registrou uma queda expressiva de 41,3% na área desmatada entre 2022 e 2024. No entanto, esta melhora não foi homogênea em todo o território. Estados como o Acre tiveram um aumento de 31% no desmatamento, um alerta para os biomas nacionais. Gisele Brito, ativista do Instituto Peregum, vinculou o problema diretamente ao agronegócio, modelo que é “concentrador de renda e de terras” e gera conflitos por água e território, afetando severamente populações quilombolas e indígenas.

Educação e mercado de trabalho: progressos que não chegam a todos

Os indicadores educacionais mostram avanços lentos. A taxa de frequência em creches para crianças de 0 a 3 anos subiu de 30,7% para 34,6%, mas ainda está muito distante da meta de 50% do PNE. No ensino superior, a taxa de escolarização subiu para 22,1%, mas evidencia uma grande disparidade: mulheres não-negras são 32,4% dos universitários, enquanto as mulheres negras são apenas 20,3%.

No mercado de trabalho, a renda média cresceu 2,9% em 2024, atingindo R$ 3.066, e a taxa de desocupação caiu para 6,6%. A queda foi mais significativa para mulheres e população negra. Contudo, a estrutura desigual permanece inalterada: os 1% mais ricos têm uma renda 30,5 vezes superior à dos 50% mais pobres.

Saúde e segurança: nordeste e norte em alerta

A mortalidade materna caiu nacionalmente, mas as regiões Norte e Nordeste—onde Alagoas está inserida—registram números muito piores que a média nacional, com 71 e 59 mortes por 100 mil nascidos vivos, respectivamente. O relatório também aponta retrocessos graves: a taxa de feminicídio subiu de 1.350 em 2020 para 1.492 em 2024. A violência é ainda mais letal para jovens negros, cuja taxa de mortalidade por causas evitáveis é quase o dobro da de não negros.

Desigualdade racial: o abismo que persiste

O relatório é enfático ao destacar que a desigualdade racial é um eixo transversal em todos os problemas. Crianças negras têm menos acesso a creches, jovens mães negras têm proporção de filhos quase duas vezes maior que as não negras, e a população indígena enfrenta invisibilidade e violência, com 208 assassinatos registrados em 2023, concentrados em estados como Roraima, Mato Grosso do Sul e Amazonas.

O documento conclui que a transformação desse cenário depende de duas frentes: investimentos em empregos de qualidade e industrialização, e a implementação vigorosa de políticas públicas sustentadas pelo Estado brasileiro, direcionadas para superar essas disparidades históricas que ainda definem o Brasil.