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    Livro resgata trajetória de Almerinda Gama, sufragista negra alagoana esquecida pela história

    Almerinda nasceu em Maceió, em 1899, e saiu de Alagoas ainda criança. Viveu no Rio de Janeiro, onde construiu uma carreira como advogada, jornalista, poeta e militante política

    há cerca de 16 horas
    Livro resgata trajetória de Almerinda Gama, sufragista negra alagoana esquecida pela história

    Redação com informações de Ryan Charles/Ascom Bienal

    A jornalista alagoana Cibele Tenório lança, durante a Bienal Internacional do Livro de Alagoas, o livro “Almerinda Gama: A sufragista negra”, obra que reconstrói a vida de uma das pioneiras na luta pelo voto feminino no Brasil. Negra, nordestina e até então praticamente ausente dos registros oficiais, Almerinda teve sua história resgatada após uma longa pesquisa iniciada por uma inquietação pessoal da autora.

    “Vi uma foto antiga de uma mulher votando, cercada de homens, mas ninguém dizia quem ela era. Quando descobri seu nome — Almerinda Farias Gama — e que era alagoana, jornalista, feminista, fiquei tomada por um sentimento de urgência. Como nunca tinha ouvido falar dela?”, conta Cibele, que atualmente vive em Brasília e é mestre em História pela Universidade de Brasília (UnB).

    A partir daí, Cibele iniciou uma investigação que começou em acervos digitais e se transformou em seu projeto de mestrado. Com poucos registros disponíveis, a reconstrução da vida de Almerinda exigiu paciência, sensibilidade e uma escuta atenta às entrelinhas da história.

    Almerinda nasceu em Maceió, em 1899, e saiu de Alagoas ainda criança. Viveu no Rio de Janeiro, onde construiu uma carreira como advogada, jornalista, poeta e militante política. No início do século XX, fez parte da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada por Berta Lutz, grupo formado majoritariamente por mulheres brancas de elite. Almerinda destoava: era negra, nordestina, de origem popular. Mesmo assim, tornou-se figura central na articulação do movimento com a imprensa.

    “Ela escrevia os manifestos, os distribuía aos jornais e ajudava a tornar o movimento visível. Era uma liderança ativa. E participou da eleição da Assembleia Constituinte de 1934, sendo a única mulher entre os candidatos naquele momento”, destaca a autora.

    Mesmo com uma trajetória tão marcante, Almerinda permaneceu fora do protagonismo histórico. Faleceu em 1999, aos 100 anos, sem receber o devido reconhecimento. “Ela nunca aceitou ser coadjuvante de sua própria história. Organizou-se, lutou e escreveu. Mas, como tantas mulheres negras, foi apagada”, lamenta Cibele.

    A decisão de transformar sua dissertação em livro veio da percepção de que a história de Almerinda merecia alcançar mais pessoas. Em 2023, Cibele venceu o Prêmio Todavia de Não Ficção, entre mais de 200 concorrentes, o que viabilizou a publicação da obra. Este ano, também foi agraciada com o Prêmio Graciliano Ramos, concedido pelo Governo de Alagoas, em reconhecimento à sua contribuição à literatura do estado.

    Para Cibele, lançar o livro na Bienal de Alagoas tem um significado simbólico: “A Bienal sempre fez parte da minha vida. Já fui visitante, trabalhei numa edição, mas nunca imaginei voltar como autora. E estar aqui trazendo a história de Almerinda, que nasceu em Maceió, é como fechar um ciclo.”

    Ela conta que Almerinda, mesmo tendo deixado Alagoas ainda na infância, mantinha viva a memória do estado em seus poemas e entrevistas. “Quando ela falou publicamente aos 90 anos, ainda citava Maceió com muito afeto. Sinto que, de alguma forma, ela me escolheu para contar essa história. Agora, com o livro, ela finalmente volta à sua terra.”

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    Cibele Tenório
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